Narrativa Vídeo

A Isla Martillo

3 de abril de 2017

*Texto publicado primeiramente no blog Planeta Macboot.

 

Esse não é nenhum texto escrito com caráter questionador. Na melhor das hipóteses, ele conta apenas uma bela história sobre o que aconteceu e o que vem acontecendo na fauna da Terra do Fogo. Um breve relato sobre pinguins.

Não é de hoje que ridicularizamos gringos que, por ventura, nos questionam ou imaginam por conta própria cobras perambulando na Avenida Paulista, tribos indígenas intocadas tomando banho de sol no Leblon ou que o cipó é o principal meio de transporte em Manaus. Eu nunca ouvi falar sobre qualquer estudo, mas desconfio que há uma grande parcela de brazucas que também imaginam a capital da Amazônia como um lugar totalmente verde, com ruas de terra batida e jaguatiricas dormindo em quintais.

Em Ushuaia a situação é a mesma. Faz parte do roteiro diário esclarecer que não há pinguins caminhando na rua. Eu não sei que parte do Happy Feet algo ficou mal esclarecido e muita gente acabou confundindo as coisas. Imagine você, no ponto de ônibus esperando o latão, e ao seu lado um par de pinguins estão dividindo uma lata de sardinha enquanto curtem o fim de tarde. Em algum lugar do mundo isso até pode existir, mas aqui, hoje, não.

 

Isla Martillo

 

Segundo os mais antigos, até os anos 70 houve uma colônia de pinguins bastante próxima da cidade, localizada mais ou menos na parte da península onde hoje é o Club Náutico de Ushuaia. Apesar da cidade já estar de pé há mais de 130 anos, 40 anos atrás ela era apenas um pequeno povoado, com um velho presídio e uns 5 mil habitantes. Não havia indústrias, poluição, pessoas.

Mas conforme o progresso deu as caras e o lugar começou a crescer, quem resolveu dar no pé foram os pinguins.

Justamente nesse ponto a história se perdeu. Não se sabe com exatidão em que ano começou ou quanto tempo o processo de migração demorou. E mais além, ninguém sabe o porque eles decidiram se estabelecer em uma pequena ilha que está a mais de 70 km da sua antiga casa: a Ilha Martillo.

Em 1800 e guaraná com rolha, o inglês Thomas Bridges aportou na região de Ushuaia com a missão era evangelizar os nativos. Algumas tentativas frustradas já haviam ocorrido, mas dessa vez a carruagem andou. Ao invés de massacrar os indígenas fazendo uso da força – e ser massacrado também, diga-se de passagem -, Bridges resolveu tudo fazendo apenas o uso de uma única arma: o diálogo. O inglês aprendeu o idioma dos nativos, ganhou a confiança deles, bateu um papo e tudo acabou bem. Não que eu concorde com o que ele fez, mas pelo fato de uma conversa ter entrado no lugar de mais pólvora ele merece algum crédito.

Feito seu trabalho, Thomas decidiu se estabelecer na região. Foi a Buenos Aires e solicitou um pedaço de terra para que ele pudesse se fixar com a família. O então presidente argentino Julio Roca viu nesse pedido uma grande oportunidade de liquidar outro conflito. Na época, Argentina e Chile estavam em um delicado processo de delimitar fronteiras, e Roca percebendo a suposta solução batendo sua porta não há deixou escapar. Bridges voltou para a Inglaterra portando um documento onde a Argentina lhe concedia terras. Como naquela época as informações eram escassas e levavam muito tempo a serem entregues, os ingleses entenderam como resolvido o conflito fronteiriço Argentina e Chile e passaram a acreditar que aquela região era celeste.

 

Pinguinera

 

Foi nesse pedaço de terra, distante uma hora de carro de Ushuaia, que se fundou a primeira estância da Terra do Fogo: a Estância Harberton. Hoje um centro de pesquisas, o lugar também abriga um museu expondo a vida marinha da região e é acessível somente pelo mar ou pela Ruta J. Um propriedade particular, que está nas mãos da mesma família à quase 200 anos.

OK, linda história. Mas que diabos tem haver esse inglês e a estância se o texto era sobre pinguins?! Pois foi justamente para dentro dessa área privada que os pinguins rumaram.

A Ilha Martillo é uma das dezenas – ou centenas – de ilhas no Canal de Beagle, deslocada cerca de cem quilômetros da saída para o Oceano Atlântico, e pertence às propriedades concedidas a Thomas Bridges. Assim como muitas outras, ela tem exatamente as mesmas características das ilhas que estão ao seu redor, e essa é a parte mais intrigante.

Não se sabe porque exatamente os pinguins escolheram essa ilha. As condições geográficas, climáticas e geológicas são exatamente iguais às de quaisquer outras que estão próximas. Mas por uma grande obra do acaso, acabaram escolhendo uma área protegida para fazerem seus ninhos. É como se eles soubessem o que estavam fazendo e estivessem cansados de vizinhos. Um vez dentro de uma área particular, e justamente sobre a tutela de um centro de pesquisa da vida marinha, eles finalmente encontraram o lar ideal.

Durante as estações mais frias, os pinguins rumam para o norte. Somente quando a temperatura começa a aumentar, em meados de outubro, eles adentram o Canal de Beagle e se estabelecem em sua ilha, onde passam o verão reproduzindo. Eles estarão por aqui até próximo ao mês de abril, quando deixam a ilha em direção às águas quentes. É sempre a mesma ilha e a operação se repete ano após ano.

 

 

São duas as principais espécies que freqüentam a Ilha Martillo: os Pinguins-Papua e os Pinguins-de-Magalhães, mas não é difícil que os Pinguins-Rei dêem as caras. Há poucas semanas escutei falar que Pinguins-de-Penacho-Amarelo, que normalmente estão na Ilha dos Estados ou próximos a Península Valdez, também estavam visitando a Martillo. Além dos pinguins, aves como skúas, petreles, cormoranes e gaivotas também figuram pelos arredores.

Chegar a “Pinguinera”, como foi apelidada a ilha, é bastante fácil, mas depende exclusivamente da compra de um tour. Por contrato, apenas uma operadora pode fazer o desembarque na reserva e cem é o número limite de visitantes diários.

Confesso que – não me pergunte porquê -, eu não estava tão animado enquanto subia ao bote que durante vinte minutos nos levaria até a Martillo. Eu estava com o clássico pensamento preconceituoso que atinge alguns viajantes. “Ahh, isso é coisa para turistas e americanos verem”.

Mas, como em muitas ocasiões, e para o meu próprio bem, eu estava errado. O barco desacelerou, eu ergui a cabeça, e ao passo em que eu via os primeiros caminhando desengonçados pela areia da praia, o guia solicitava em voz alta à todos: “Eles são amigáveis, mas se assustam fácil. Por favor, controlem seus sentimentos.”

Pra mim, já era tarde demais.

 

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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