Causas e Lições Narrativa

A primavera de Pablo Novak

7 de setembro de 2016

– Villa Epecuén. Abril de 2016.

O clima era soturno e a tensão silenciosa pairava no ar. Era fim de tarde.

Pedalávamos em fuga da promessa de chuva quando o notei próximo a entrada da cidade. Eu já havia lido o bastante sobre ele para reconhecê-lo. Não haveria a menor chance de existirem dois iguais.

Encostei minha bicicleta e me aproximei saudando-o. Eu já sabia seu nome e conhecia sua “fama”. Um rápido diálogo, uma foto tremida e a promessa de nos vermos na manhã seguinte em sua casa. Conhecemos Pablo Novak, o único – e muito provavelmente o último – habitante de Villa Epecuén.

 

Pablo Novak, o único habitante de Epecuén.

 

Um gole de rum; no bico mesmo. Pablo se gaba de tomar o destilado com mate após me passar a garrafa. Somos dois brasileiros e uma polonesa sentados juntos ao argentino de 86 anos. Seu lar é pequeno e não dispõe de luxos como eletricidade ou água corrente. Poucos objetos além de um fogão a lenha e um rádio a pilha compõem a casa.

Pablo é um sobrevivente; talvez um ex-espião da KGB que desertou; um franco atirador. O atual comandante do promissor balneário que hoje está mais próximo de um cenário do apocalipse. Pedalando sua bicicleta oxidada e acompanhado por seu fiel escudeiro, Chozno, ele faz a vigília de seu território somente quando o tempo está favorável. Ele já foi, e continua sendo, o personagem principal dessa história. Um caso raro onde o filme é ignorado pelo próprio protagonista, que jamais viu alguma das suas milhares de fotos publicadas na internet ou os filmes dos quais participou. Muito provavelmente, nunca lerá meu texto.

 

Casa do Pablo.

 

A paisagem é quase monocromática. O cinza do concreto se mistura ao branco do sal e torna tudo tom de bege. As árvores estão mortas, secas, brancas e, surpreendentemente, de pé. A maioria dos edifícios desmoronou, mas alguns ainda têm formas reconhecíveis. As escadas que resistiram já não levam a lugar algum. Há uma infinidade de escombros que emolduram a linha do horizonte. Em alguns casos, placas informam o nome dos proprietários e as antigas funções de cada imóvel que hoje dá forma a este cenário de guerra.

 

Margens do lago.

 

Nos tempos de ouro, Epecuén foi um próspero balneário, recebendo milhares de turistas na alta temporada. Os níveis altíssimos de sal na água do lago homônimo ofereciam supostamente a cura para diversos males, e isso permitiu que o turismo fosse explorado com vigor.

 

Antiga Epecuén

 

Ninguém esperava que, com a mesma rápida velocidade que se expandiu, Epecuén veria tudo ir por água abaixo. Literalmente.

No começo da década de 70 o nível do lago começou a baixar por conta de um ciclo natural, algo que, segundo ex-moradores, agora se sabe que acontece a cada 70 anos. O próprio Pablo lembra como seu pai o alertava sobre essa ação da natureza.

Preocupados com a escassez de água e o desequilíbrio entre os lagos da região, em 1975 o governo provincial construiu o Canal Ameghino. Uma obra engenhosa que conectava várias bacias e regulava a vazão de água em todas das lagunas da região. Com esse sistema, nenhuma secaria ou causaria inundação.

Dizem que foi após o golpe de estado de 1976 que o controle foi deixado de lado e os canais foram abertos para não se fecharem mais. Ao que parece, os militares estavam mais preocupados com “outros negócios”.

Desde então, a laguna começou a aumentar seu nível em 50 ou 60 centímetros por ano. Quando percebeu-se o perigo de inundação, tornou-se obrigatório um trabalho de contenção via terraplanagem para que as águas não adentrassem a cidade. Novak participou da construção dessa barragem.

Mas em 1985 as chuvas chegaram. Em um evento de longo prazo, muito mais água do que o habitual foi entregue das colinas circundantes, e logo o lago começou a inchar. Era a segunda parte do tal ciclo natural da região se completando e apesar dos esforços, a catástrofe estava desenhada.

Em novembro daquele ano o enorme volume de água rompeu a barragem de pedra e terra, e grande parte da cidade foi inundada em questão de horas. Em 15 dias todo o povoado estava 2 metros submerso.

 

Momento da inundação.

 

O pai de Pablo havia chego aquele lugar em 1918. Em pouco mais de um ano, serão 100 anos da família Novak nessa área. As mãos já gastas e trêmulas de Novak contam histórias. Apesar de ter sido dono do Hotel San Martin em Epecuén, seu forte sempre foram os tijolos. Um ofício que herdou de seu pai e tratou de passar aos seus filhos. Pra nossa surpresa, também foi sócio-fundador da equipe de futebol Club Union Epecuén, eterno rival do Club Gauchos.

Ele tinha 56 anos quando a cidade foi inundada e, como a maioria dos habitantes do lugar, salvou o que pôde e mudou-se para Carhué – cidade há 10km de distância -, onde comprou uma casa para a família. Pouco tempo depois decidiu voltar à sua cidade natal e instalar-se numa propriedade sua onde a água não havia chego. Tinha vacas, alguns porcos e um trator. Como não havia mais prefeitura, não havia mais a quem pagar impostos. Ninguém mais voltou.

Sua família demorou a aceitar a ideia de que ele viveria sozinho em Epecuén e somente com o tempo entenderam sua decisão de não sair da cidade em que nasceu e cresceu. Enquanto sentado ao nosso lado, comenta que no dia em que não puder mais caminhar vai morar com a família. E com um leve sorriso, parece desdenhar da própria fala. No fundo ele sabe que seu lugar é ali.

Aparentemente temos sorte. Seu neto Christian o levará a capital no dia seguinte para passear. Ele está de malas prontas e o pegamos no “pulo do gato”. Dentre as poucas coisas materiais pelas quais tem apreço, nos conta sobre sua coleção de moedas. Os poucos reais que carregávamos conosco tiveram seu endereço final.

Seu espanhol é arrastado e a voz parece cansada. Provavelmente ele já não deve ter a mesma paciência ou empolgação para contar sempre a mesma história a diferentes curiosos. Ele parece mais preocupado em nos contar do seu dia-a-dia ou sobre seu cachorro.

“Vou lhes contar sobre meu companheiro. Eu já estou velho. Chozno significa filho do tataraneto. Já não vou chegar a ver essa geração. Por isso dei esse nome ao meu cão.” – Novak.

Em 1993, a inundação que veio consumido a cidade em ritmo lento alcançou seu nível máximo, cobrindo alguns pontos com 10 metros de água.

Quase 25 anos depois, em 2009, com o clima novamente modificado, as águas começaram a diminuir. A já esquecida vila começava a voltar à superfície. Ferro retorcido, postes sem fio, ferrugem, lama.

Agora quase toda a água se esvaiu, deixando descoberto um cenário que parece ter sido retirado de um filme sobre o fim do mundo. Irreconhecível, a vila não foi reconstruída, mas se transformou novamente em uma atração turística para aqueles dispostos a pagar 50 pesos e enfrentar agora outro lado da moeda.

 

Rolê pelas ruínas.

 

Restos oxidados de carros e móveis, casas em ruínas e eletrodomésticos destruídos. Cemitérios revirados expõem tumbas outrora enterradas. Durante 20 anos os antigos habitantes tiveram que esperar para poder visitar novamente os túmulos de seus entes queridos. Muitos já nem estavam mais lá. Uma paisagem estranha e apocalíptica, que representa um momento traumático para a posteridade.

“Achávamos que logo a água baixaria, mas foram 20 anos no mesmo lugar. Agora já está quase novamente onde estava antes da inundação. Por 10 anos eu tive a esperança de ver novamente a cidade erguida. Hoje isso não existe mais.” – Novak.

 

Cenário de guerra

 

As ruínas que reapareceram recentemente agem como prova do quão ruim e complicado as coisas podem ficar se o homem pensar que pode manusear a natureza da forma como bem entender. É o bastante perder algumas horas pelas ruas lamacentas de Epecuén para entender como seria difícil perder tudo de uma hora para outra e ser capaz de recomeçar. Se vale de alguma coisa, é o alerta sobre o que pode ocorrer.

Foram pouco mais de 40 minutos sentados na pequena cozinha. Uma pequena visita àquele que decidiu viver isolado numa – mal comparando – espécie de Chernobyl latino-americana. Uma região inóspita, pouco convidativa, mas que esconde uma história forte. Muito provavelmente uma das maiores catástrofes naturais de toda a Argentina, ainda que pouco conhecida mesmo entre nossos vizinhos hermanos.

E que esconde, já não tão bem, uma figura carismática. Um mistura de perseverança, teimosia e amor a própria terra.

 

Despedida de Pablo.

 

Nos despedimos combinando uma caipirinha, em retribuição ao rum e a receptividade, quando ele viajar ao Brasil. Provavelmente nunca mais cruzaremos nossos caminhos.

Nem todas as soluções para os problemas são fáceis, rápidas ou completas. E perguntas – questões mais importantes – não tem o tipo de respostas simples e conclusivas que gostaríamos.

Este foi e sempre será um episódio insatisfatório de nossas viagens. Controverso. Não há nenhum final feliz ou sequer confortável. A vida nos entrega momentos como esse, onde mais importante do que testemunhar uma tragédia são as lições que aprendemos com ela.

Epecuén significa “Eterna Primavera”. E nela ainda florescem as lembranças de um homem acusando a necessidade de um despertar.

 

Uma polonesa, um argentina, um brazuca.

 

– Nota de agradecimento: Carhué é uma daquelas pequenas cidades interioranas onde todos se conhecem. Provavelmente não supera os 10 mil habitantes. E por incrível que pareça, nesse meio de lugar algum, tivemos umas das melhores experiências com couchsurfing. Nossos sinceros agradecimentos a Edel, nossa mãe por dois dias.

 

Nossa host.

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5 Comentários
  1. Responder

    Dieog Andrade

    30 de outubro de 2016

    Estou em êxtase com seus textos! Maravilhosos, parabéns!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      31 de outubro de 2016

      Muuuito obrigado por me acompanhar!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Muuuito obrigado!

  2. Responder

    Hailton Andrade Nunes Neto

    11 de janeiro de 2017

    Massa demais, meu velho! Acabei lendo só hoje. Uma daquelas ótimas histórias de viagem.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      19 de janeiro de 2017

      Valeeeu man! Obrigado mesmo!

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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