Aventura Inspiração

Ao alcance do sopro da morte

21 de junho de 2016

Como muitas coisas na vida, não adianta enfeitar a realidade só porque o tempo passou. Foi péssimo. Continua sendo.

Ajoelhado, com o andar em câmera lenta que costuma preceder desastres, aquele viaduto parecia não ter fim. Em algum lugar daquele caminho eu havia encarado o diabo de frente, e meus ossos gelaram de medo. Subestimei pela segunda vez os malditos trilhos e fui novamente nocauteado. Sem piedade. 

Foi nesse instante em que jurei nunca mais pisar naquele pedaço perdido do inferno. Discursei sobre minha total aversão a qualquer altura superior a do meio-fio e prometi atitudes mais sensatas.

Mas essa nunca foi uma questão de escolha.

Abandonar todo o bom senso, em condições de extrema incerteza, na remota possibilidade de um pouco de “diversão” não é algo que deixo sujeito a debates.

 

Viaduto Mula Preta

 

São nessas horas, 90 metros acima das copas das árvores, que tenho uma leve tendência a filosofar. Não me pergunte o porquê.

Viajar nem sempre é bonito, nem sempre é confortável. Às vezes dói, quebra seu coração. A estrada muda você. Deixa marcas na sua memória, em sua consciência, em seu coração e em seu corpo.

Assim como em uma ferrovia, a estrada pode vir a ser um lugar onde coisas muito ruins acontecem com pessoas agradáveis. A probabilidade de que você ser saudado calorosamente, tratado generosamente, agraciado com um sorrido ou um polegar para cima é equivalente a chance das coisas darem muito, muito erradas em um piscar de olhos. Metaforicamente ou não, se o trem passar você apenas corre e torce pelo melhor.

Talvez viver o imprevisível seja nosso maior problema. Seja na beleza da falta de itinerário ou na desolação do mapa esquecido em cima da mesa, essa instabilidade acompanha, abençoa e amaldiçoa quem opta por encher a mochila e zarpar. Ela atrai, compõe e determina um rumo, para o bem e para o mal. No final, ninguém sabe onde é o fim da linha e só cabe a você torcer, estar atento e precavido para diminuir os acontecimentos que acabam com indagações se resumindo em um desolado “por quê?”.

Por outro lado, trata-se não somente de chegar são e salvo ao túmulo, mas de agarrar o tempo que ainda está em jogo e gastá-lo da melhor forma possível. A vida está da janela pra fora e somente um covarde se esconde pra sempre no seu bunker.

Medos e riscos adornam essa falta de coragem. Você pode superá-los, aprender a conviver com eles ou escolher nunca sair de casa.  Não há nenhuma outra maneira. Há momentos em que será exigida uma suspensão voluntária da descrença, negação de estatísticas, da evidência empírica e do bom senso. Situações potencialmente perigosas, talvez insetos no jantar, base jump, uma trilha na selva colombiana; não me interessa. As palavras “aventura” e “limite” têm diferentes valores de acordo com cada pessoa. O que estou dizendo é que ou você ultrapassa esses conceitos, ou vai pra frente da televisão com uma tigela de sucrilhos.

 

Viaduto Mula Preta- 98 metros de altura e 360 metros de comprimento.

 

Eu estive em uma encruzilhada em minha vida quando fui pelas primeiras vezes até a Ferrovia do Trigo. Me lembro de estar com os olhos cheios d’água enquanto agarrava os trilhos e sujava as mãos com óleo. Mas eu resolvi voltar pela terceira vez. E tenho que admitir, estava me perguntando se tudo de ruim que passou pela minha cabeça ainda estaria à espreita lá.

Frente a frente ao viaduto Mula Preta por uma última vez. Eu escolhi a todo custo não me abaixar. Ignorando qualquer aviso sonoro sobre a aproximação do trem, coloquei meus fones de ouvido e dei play em música que, gosto de imaginar, me encorajava.

Durante 360 metros não superei a vertigem, mas aprendi a caminhar de mãos dadas com ela. Não olhei para trás ou para baixo. Me concentrei numa tentativa psicológica de não entrar em pânico e engoli o choro.

Foi ali, nos últimos 10 metros, ainda ao alcance do sopro da morte, mas armado de coragem, que exorcizei minha alma. Foi ali, por alguns breves segundos e passos, que a presença do medo me tornou invencível.

 

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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