16 de junho de 2016

Agosto. Estou no coração da Bolívia sentado em uma poltrona não numerada do Expresso Oriental. A classe é ruim o bastante e a Maria Fumaça não supera os 20km/h. Às 10 horas da noite aquele vagão estaria lotado de trabalhadores que seguiriam para Santa Cruz de la Sierra; mas por enquanto somente meus dois amigos e um soldado mal encarado me acompanham. Ainda tento me recuperar das cervejas destampadas em Puerto Quijarro. O trem chega a uma estação quase deserta e alguns bolivianos – que nos tratam como astronautas chegando a outro planeta – nos oferecem comida por poucos trocados. Arroz e mandioca em um saco plástico; algo parecido com frango no espeto; talvez outra opção em uma próxima estação dentro de 3 horas. Bom apetite.

– Roboré, Bolívia. 2011.

 

Poucas coisas traduzem melhor a cultura de um povo do que sua comida. Os ingredientes, o modo de preparo e a forma como as pessoas comem dizem muito. Não se trata apenas de simples pratos, mas de um pedaço do seu passado e tradições. Uma pequena prova sobre o que aconteceu e como as coisas têm andado por ali.

Algo tão íntimo como uma refeição é um reflexo tanto da história de um lugar, como suas atuais circunstâncias políticas e geográficas. Na verdade, a refeição é onde você tem a menor probabilidade de escapar da realidade e da atual situação de uma nação. O que você está comendo é sempre o final de uma história muito longa e muitas vezes uma resposta engenhosa para entender alguns temas muito complicados.

Como quem descobre na feijoada o símbolo da capacidade e do poder de “fazer acontecer” que teve um povo injustiçado. Uma tentativa de extrair e transformar – nunca esquecendo o aconteceu – tudo de ruim que se passou no tempo da escravidão mostrando como, mesmo em situações de extrema adversidade, as pessoas conseguem fazer coisas mágicas.

Isso, provavelmente, não vai estar escrito no cardápio de algum restaurante daquele guia imbecil com os “10 melhores restaurantes da cidade” que você comprou no aeroporto enquanto esperava por sua escala. Isso está enraizado no povo, nas ruas, e necessita de um processo de interpretação a fundo. Faz parte dos pré-requisitos de um viajante.

Conversar com as pessoas. Provar. Descobrir. Se você se preocupar com uma possível diarreia, vai perder metade da diversão. Comer sem medo vale a pena.

Quando você diz “não” para algo tão simbólico como a comida local, e procura (sei lá) o trio – hambúrguer, batata e coca-cola – do império do palhaço só para encher o estômago, você não só está deixando de lado um grande aprendizado, como está fechando as portas para tudo que possa ser novo, saboroso e bonito.

Insisto: viajar não é ir a pontos turísticos. São só lugares. As Pirâmides do Egito estão há mais de 3 mil anos no mesmo lugar e podem esperar alguns minutos em troca de um chá em algum mercado do Cairo. Trata-se na verdade de aprender, ensinar e compartilhar tudo o que conseguir com aqueles que vivem tão longe e diferente de você. Vale sempre a máxima: não se trata de lugares, mas sim da experiência.

Sentado à mesa, permitindo-se uma perspectiva privilegiada. O mundo é de fato, cheio de pessoas em sua maioria boas e decentes, que estão simplesmente fazendo o melhor que podem. Todos, ao que parece, se orgulham de seus alimentos e gostam de compartilhá-los com os outros. É nesse momento em que todos baixam a guarda, revelando quem são de verdade. É justo ali, entre uma mordida e outra, que você descobre uma nação.

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23 Comentários
  1. Responder

    Alessandra Fratus

    3 de dezembro de 2016

    Seus textos são inspiradores. Essa é uma das motivações que me fazer querer sair por ai conhecendo o mundo: Descobrir o que nos une pelo mundo, mesmo sendo diferentes. Boa sorte na sua caminhada. Sigo acompanhando! 😉

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Muuuito obrigado Alessandra! Essa é minha motivação também!

  2. Responder

    viagenseviagenseviagens

    3 de dezembro de 2016

    Adorei o post!!!! Também concordo que temos que experimentar tudo que o local oferece, e não somente visitar seus pontos turísticos… Só assim a viagem se torna enriquecedora…

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Boaaa! É exatamente isso!

  3. Responder

    Rafael de Carvalho Oliveira

    3 de dezembro de 2016

    Tudo isso faz parte de uma viagem, e é incrivel como as coisas acontecem e se oferecem… quando me perguntam sobre a melhor lembrança da minha visita a Cuzco por exemplo, todos esperam escutar a resposta de Machu Pichu, e geralmente é o que eu respondo, mas no fundo o que mais me marcou foi dançar com uma argentina em uma balada peruana… são essas coisas que levamos da vida. Belo post. Abraços

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Boaaa man! Machu Picchu é lindo, surreal, mágico, todos os melhores adjetivos que podemos encontrar. Mas no fim, não são as ruínas que fazem a diferença. São as pessoas que estiveram por ali. Então é perfeitamente aceitável que sua melhor experiência seja algo desse tipo. Os lugares não são feitos de pontos turísticos, mas de pessoas como eu ou você.

  4. Responder

    Fábio Mendes

    3 de dezembro de 2016

    Perfeito! Em nossas viagens nós sempre buscamos as grandes atrações, os pontos turísticos “imperdíveis”, mas sempre buscamos contato com os moradores, experimentar sua comida, sentir sua vivência. É uma das coisas mais legais em visitar um lugar diferente!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Exatamente! Os lugares não são feitos de pontos turísticos, mas sim de pessoas!

  5. Responder

    angiesantanna

    3 de dezembro de 2016

    aehaueha ri muito do “Se você se preocupar com uma possível diarreia, vai perder metade da diversão. Comer sem medo vale a pena.” só não dá pra arriscar muito né, se não é tenebroso demais aheuahe

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Se tá na mesa ou na barraquinha de comida e tem uma cara boa, mando pra dentro! haha

  6. Responder

    racingmackerel

    3 de dezembro de 2016

    Adorei!!! Fez-me recordar a minha visita à Bolivia também… essa simplicidade das gentes e dos sabores tão maravilhoso e tão completo! Desfruta muito o caminho!!!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      A Bolívia ainda é um diamante bruto a ser lapidado! Por isso é tão irada!

  7. Responder

    carlaalexmota

    4 de dezembro de 2016

    Que legal! Gosto da forma como você escreve e dos seus relatos de viagem. Não conhecia e gostei do que li. Continua.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Obrigadoooo! Valeu mesmo!

  8. Responder

    Viajar pela história - Catarina Leonardo

    4 de dezembro de 2016

    Sou uma apaixonada por história. Tudo o que escreveu faz imenso sentido. A cozinha de um povo é mesmo a sua cultura, a sua história. Excelente artigo.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Verdade! A refeição é o fim de uma longa jornada. 🙂

  9. Responder

    Juliana Moreti (turistando.in)

    5 de dezembro de 2016

    O lado bom de ser “menino”! rs
    Nunca que eu iria provar algo que pudesse me dar uma diarréia!
    😉
    Isso para mim estragaria totalmente a diversão!
    Mas isso nao significa deixar de comer a comida tìpica do local! Adoro provar sabores diferentes!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Não sei se por ser homem. Já conheci na estrada muitas mulheres muito mais guerreiras do que eu. hahaha Faz parte do jogo. O importante é não acabar no Mc Donalds por medo de provar algo diferente, por exemplo.

      • Responder

        Juliana Moreti (turistando.in)

        16 de dezembro de 2016

        Então eu não sou guerreira!
        hahahahahaha
        Como se diz em italiano, sou uma “buongustaia”! Amo comer bem e conhecer novos gostos, mas para tudo existe um limite!
        😉

  10. Responder

    Camila Lisbôa

    7 de dezembro de 2016

    Viajar é provar de tudo, desde a comida local, até os cheiros, as cores… Tem gente que se esquece e fica fazendo check list de guia de viagem… mas paciência, são eles que perdem!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Exatamente. Acabam fazendo de uma viagem um cativeiro baseado em roteiros pré determinados. Perdem e muito.

  11. Responder

    Rafael

    24 de janeiro de 2017

    MANO! que bonito este blog!!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      26 de janeiro de 2017

      Valeeeeu irmão!

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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