Inspiração Narrativa

Capitão Ahab perante Moby Dick

1 de junho de 2016

Dez mil anos a.C o homem chegava ao extremo sul da América. Depois de percorrer todos os lados, os continentes haviam se acabado e a Patagônia era o fim da linha. Mas o que encontrou no fim do caminho?

Talvez um dos momentos mais marcantes de uma jornada seja quando você chega a algum lugar, olha ao redor em uma vista claramente inspiradora, e percebe: “Puta merda! Quase ninguém viu isso!”

Eu não sei o que Hiram Bingham pensou quando olhou para Macchu Pichu pela primeira vez. Certamente ele não havia “descoberto” o lugar. Provavelmente, ele foi apenas o primeiro não-indígena em séculos a lançar seu facão afiado sobre a mata e abrir clareiras até avistar as ruínas. De qualquer forma, posso apostar que ele se sentia bastante presunçoso sobre sua realização – e isso é perfeitamente aceitável. Você olha e pensa: “Uau! Isso tem estado aqui por todo esse tempo? Quantos bastardos transitaram próximos a este lugar durante anos e perderam isso?!”

Não é difícil imaginar a expressão estampada no rosto de Perito Moreno ao afastar os últimos galhos e dar de cara com a imensa parede de gelo. Tal qual em um final de filme inesperado, com uma reviravolta aos 48 do segundo tempo, que te coloca contra a parede descrente, ele não deveria estar esperando por isso. Nesse momento aflora um instinto ganancioso, egoísta – a noção de que tudo é para você, que você é singular e tem a sorte de ter visto isso. Por um breve momento, em sua cabeça, você – e somente você – obtém todo o bolo.

 

 

Tomado por esse espírito, desci as passarelas cravadas na montanha, bem a frente do glaciar. Visitantes em abundância já haviam dado os mesmos passos ao longo dos anos, mas não há como evitar o sentimento. O fôlego se vai e você passa a assumir a importância do papel de parede em movimento. Por isso é algo realmente especial.

Fronteiras de um azul puro, geleiras que emolduram o pôr do sol, vales de rochas esculpidas e uma beleza selvagem. Uma emboscada por trás da grande barreira de gelo, alguns quilômetros de terreno difícil e logo somente o mar. O fim do mundo.

Como formigas escalando a lombo de um velho dinossauro, alguns se aventuram calçando bases de ferro e tornam-se invisíveis sobre a geleira.

Como foi que os primeiros chegaram? Sentiram como as forças da natureza superavam seu controle? Tiveram frio, fome ou medo? O que mudou desde que o explorador argentino desbravou essas terras delimitando fronteiras? Provavelmente, nada.

Doze mil anos atrás o homem chegava ao extremo sul da América e – depois de ter seu berço na África e percorrer todos os continentes – estava em seu último lar. O mundo havia se acabado. E o que havia no final do caminho ainda está lá. Intacto. Imponente.

Provavelmente não fui o primeiro e nem serei o último a – diante destas imensidões – ficar ligeiramente perturbado e me questionar sobre limites da vida e a inevitabilidade da morte.

Enquanto gigantescos pedaços de gelo caem do sigiloso muro eterno, flutuando no lago de gelo e ecoando pelas montanhas, de alguma forma você passa a entender e simplificar as coisas. A sensação tenebrosa de seus delírios contrasta com a paisagem, e por alguma razão, torna-se algo bonito.

 

 

Ainda que pequenas, algumas marcas ficam em seu corpo e alma conforme você se move através desse mundo. Há lugares que parecem estar lá para nos ensinar algo. Imensidões que mostram o quão pequenos somos, tal qual as Cataratas do Iguaçu ou Perito Moreno, e que te colocam por um breve momento como Capitão Ahab perante Moby Dick. Indefeso, imóvel, refém de algo maior. Contrariando qualquer teoria do caos e tirando a importância das consequências do teu simples bater de asas.

Costumo prestar atenção no silêncio e na falta de diálogo que habitam lugares como esse. Com a maioria calada, contemplando e permitindo-se apenas deixar levar pelas imagens, fizemos nossa lição de casa.

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4 Comentários
  1. Responder

    Nathalia Lorena

    1 de junho de 2016

    Perfeito seu texto. Emocionante. Não vejo a hora de estar nesse lugar. Fantástico.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Não importa se você já viu um milhão de vezes esse lugar por foto. Você vai se surpreender muito!

  2. Responder

    Mariana Carvalho

    2 de junho de 2016

    Texto incrível, parabéns!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Valeeeeu! Muito obrigado!

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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