Causas e Lições

Castoreiras a toque de caixa

19 de Janeiro de 2017

O cenário sugere uma catástrofe. É como se alguém tivesse colocado uma bomba em meio aos bosques e acendido o pavio. Há árvores que morreram de pé com tons acinzentados, troncos mutilados que atingem a altura dos nossos joelhos e árvores afogadas em meio a água gelada. A vida prega peças e há momentos em que tudo o que poderia dar errado acaba por acontecer, seja lá por qual motivo.

Eu havia chego a Ushuaia no meio de abril, durante uma nevasca fora de época. Naquele dia, frente a uma castoreira, não havia razão alguma para imaginar que eu iria passar boa parte daquele ano enfurnado na Patagônia e envolto às questões que permeiam o lugar.

 

Represa no Valle de Lobos, Ushuaia.

 

Dessa vez o responsável não é o homem, ao menos não em um primeiro plano. O que aconteceu nesse trecho da trilha à Laguna Esmeralda, assim como em muitas outras regiões da Terra do Fogo, não foi uma bomba, mas uma expansão de uma espécie “invasora”. Os castores, aqueles animais cativantes de desenhos animados e que muitos adoram, estão destruindo a Patagônia.

A situação é caótica, pra não dizer desesperadora. Os locais atingidos não são somente um córrego ou um rio isolado. Uma grande porcentagem das bacias da região já foram liquidadas. Em uma estratégia defensiva, os castores alteram a cena do local derrubando árvores ribeirinhas, causando o transbordamento de rios, construindo represas e definindo rotas de inundações. Desde que foram introduzidos, na década de 40, as margens do Lago Fagnano – compartilhado por Argentina e Chile -, os roedores dentuços vêm marchando e se espalhando pelo extremo sul da América, destruindo uma das regiões mais intocadas do mundo, numa tentativa de colonizar o continente.

 

Parte da floresta destruída nos arredores de Ushuaia.

 

É fato que eles não são famosos por serem uma espécie invasiva. Não no Canadá – sua terra natal -, ao menos. Na melhor das hipóteses, eles são engenheiros do ecossistema que alteram qualquer cenário gélido e molhado, moldando radicalmente a paisagem até o lugar se transformar em seu habitat natural. E assim como diversas outras espécies que em grupos tornam-se potencialmente perigosas, milhares dessas criaturinhas em um só lugar são capazes de descarrilar todo um ecossistema.

No sul da Patagônia não é diferente. Esses hidrólogos roedores estão derrubando florestas inteiras, criando diques, alagando bosques, e de um modo ou de outro, dando um chega pra lá nas espécies endêmicas da região.

 

Ação direta do castor.

 

Árvores com 150 anos de vida estão vindo a abaixo e deixando de existir. Ao contrário do que acontece no Canadá, onde os exemplares voltam a crescer, as lengas não são renováveis. O solo fértil na Terra do Fogo tem somente cerca de 40 centímetros de altura, o que tornam os bosques extremamente frágeis e vítimas fácies sob qualquer perturbação.

Ainda que tratada por muitos como algo próximo a “falta de sorte”, a situação foi causada por falta de planejamento, pra dizer o mínimo.

A história parece uma brincadeira de mau gosto, mas não é. Em 1946, numa tentativa de alavancar o mercado de peles na Terra do Fogo, 25 casais de castores foram importados do Canadá para o fim do mundo. A economia na região ainda era fraca e precisava de investimento. Mas desde então isso se tornou algo fora de controle e dali pra frente, foi ladeira abaixo.

Em primeiro lugar, devido ao clima, a pele dos castores sofreu uma alteração natural e fugiu aos padrões de qualidades requeridos para esse tipo de peças. Essa, convenhamos, era difícil de prever. Mas logo depois viria a pior parte, a qual, provavelmente, nem foi cogitada devido as altas cifras que eles estavam esperando emplacar. Não existem predadores naturais, como ursos e lobos, no caminho dos castores na Patagônia. E isso, somado a inutilidade da pele, tornou a expansão dos roedores desenfreada.

Acredite se quiser, os 50 exemplares hoje se tornaram mais de 100 mil. Não que o número represente um problema, mas sim as ações desencadeadas por eles. Na falta de predadores, alguém esqueceu de avisar aos peludos que já não é necessário criarem represas para se proteger. Hoje eles já ocupam uma área de floresta equivalente ao dobro da cidade de Buenos Aires. Lugares como Ushuaia e a Ilha Navarino já estão povoadas e as criaturinhas já atravessaram o Estreito de Magalhães. Se há dez anos era difícil de imaginar, hoje eles já são uma eminente ameaça a área continental. Se nada for feito, muito em breve eles estarão tirando selfies com os turistas de Bariloche.

O problema já deixou de ser somente ambiental e passou a ser econômico também. Áreas de gado estão sendo inundadas e, em uma conta rápida, para uma máquina  desfazer um dique, o custo é de cerca de 30 mil pesos. Isso sem contar que o castor irá refazer tudo outra vez em duas ou três semanas se permanecer na região.

 

Castoreira próxima à Tolhuin.

 

Na tentativa de conter a população de castores, em 2008 a Argentina e o Chile assinaram um primeiro acordo binacional para promover a caça comercial e recreacional do animal. A primeira ideia visava controlar a espécie por meio da caça, venda de peles e caudas. Mas isso não funcionou porque sempre era feito como um hobby ou renda extra. O animal era caçado perto das estradas e praticamente ninguém se metia floresta adentro por dias, percorrendo largas distâncias.

Uma vez atestado que isso não seria o suficiente, os governos aumentaram as táticas de erradicação partindo para o pagamento de recompensas para a captura do roedor gigante. São 5 pesos, ou 1 real no câmbio atual, por animal capturado. Me pergunto se esse valor é suficiente para pagar o projétil.

Mesmo com o baixo valor estipulado, é fácil encontrar manipuladores de armadilhas financiadas pelo governo, biólogos empunhando rifles e cozinheiros afiando suas facas na espera por carne de castor. É claro, todos esperam que o animal seja eliminado de forma responsável, por mais contraditório que isso possa soar.

No entanto, nenhum dos programas lançados conseguiu frear a expansão territorial dos castores e o desequilíbrio regional do ecossistema continua crescendo. Ambos  governos não foram capazes de encontrar ainda uma forma sustentável, ou mesmo eficiente a qualquer custo, para eliminar os dentuços peludos.

Talvez o plano que mais tenha chegado perto do sucesso aconteceu entre 2004 e 2006, quando uma investida chilena implementou um programa para controlar as espécies invasoras que resultaram na captura de quase 12 mil castores.

Agora novamente está entrando em ação uma nova versão do programa de erradicação. Pessoas serão contratadas com salário fixo e irão se concentrar no extermínio. O plano será implementado pela FAO, uma agência especializada das Nações Unidas, e tem apoio de grupos ambientais.

 

Parque Nacional Tierra del Fuego, Ushuaia.

 

Infelizmente, esse é mais um episódio onde tecnicamente tudo o que poderia dar errado aconteceu e não há uma solução aparente. A história foi feita assim e agora tratasse de uma encruzilhada. Ou comete-se um extermínio de castores, ou eles acabaram com as florestas da Patagônia. Dificilmente se encontrará um meio termo.

Nem todas as soluções para os problemas são fáceis, rápidas ou completas. E perguntas – muitas vezes sobre questões importantes -, frequentemente não têm o tipo de resposta simples conforme gostaríamos. O que será dos castores e dos bosques destruídos, ninguém sabe.

Uma triste realidade onde o homem, sempre olhando para a própria barriga, conseguiu colocar frente a frente a fauna e flora de uma região para que somente uma possa permanecer viva.

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26 Comentários
  1. Responder

    Aline Fonte

    19 de Janeiro de 2017

    Gostei muito do texto. Acompanho a página no instagram. Obrigada por compartilhar sias experiências e descobertas! 🙂

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      20 de Janeiro de 2017

      Obrigado a você por acompanhar, Aline!

  2. Responder

    Isabel Martins

    20 de Janeiro de 2017

    É desolador ver estas fotos, acredito que ao vivo deve ser mais triste ainda!! Muito complicada a situação, mas temo que o homem demorou muito para tomar algum tipo de providência e agora terá de entrar com medidas drásticas…nem quero ver a reação geral qdo isso acontecer!! E q delícia ler seus textos, hein?!?….nem preciso fechar os olhos para sentir e ver o lugar..;)

  3. Responder

    naomeesperaprojantar

    20 de Janeiro de 2017

    Verdade Isabel. Os castores já estão há 70 anos por lá e a tendência é só piorar. Mas é uma sinuca de bico essa situação. Ou eles destroem tudo ou é realizada a maior carnificina. Muito complicada a situação. Obrigado por ler e pelo elogio!

  4. Responder

    Amigas Viajantes

    27 de Janeiro de 2017

    Adorei o post. Nao imaginava que os castores fizessem esse estrago.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      27 de Janeiro de 2017

      Obrigado por ler! É um problema gigaaante.

  5. Responder

    Ana Carolina Vasconcellos Miranda

    27 de Janeiro de 2017

    Nossa, fiquei bem triste ao ler seu relato!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      27 de Janeiro de 2017

      Muuuito complicada a situação. Infelizmente.

  6. Responder

    Mari Vidigal

    27 de Janeiro de 2017

    Adorei o texto, e que complicado, hein?! Não conhecia seu blog e vou acompanhar. Adorei.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      28 de Janeiro de 2017

      Complicado demais! Obrigado por acompanhar, Mari!

  7. Responder

    Mirella Matthiesen

    27 de Janeiro de 2017

    Não tinha ideia desse tipo de problema com castores que a Patagonia está sofrendo… um tiro que saiu pela culatra e está colocando em risco todo um ecossistema.
    Muito triste!
    Obrigada por compartilhar sua experiência.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      28 de Janeiro de 2017

      “Um tiro que saiu pela culatra” é uma ótima definição pra situação. Valeu por acompanhar, Mirella!

  8. Responder

    Paulo Santos

    28 de Janeiro de 2017

    Que surpresa pra mim ver que castores estão presentes na Patagônia. Infelizmente espécies invasoras podem ser devastadoras.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      28 de Janeiro de 2017

      E logo logo vão tomar toda a Patagônia.

  9. Responder

    Pedro Henriques

    28 de Janeiro de 2017

    Relato um pouco triste, mas mesmo assim gostei de ver essas fotos, parece uma boa zonas para fazer caminhadas.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      28 de Janeiro de 2017

      Já conhece a Terra do Fogo, Pedro? Tem trekkings iraaaados! Laguna congeladas, glaciares, montanhas… vale a trip!

  10. Responder

    Juliana Noronha

    28 de Janeiro de 2017

    Guilherme, que ótimo texto, apesar da triste informação!!
    Pude vivenciar esse estrago em nossa trilha até a Laguna Esmeralda. Foi o que você falou, medidas tem que ser tomadas em sua brevidade, mas apenas uma espécie poderá sair viva.
    Infelizmente, o dinheiro ao mesmo tempo move e cega o homem.

    Beijão!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      28 de Janeiro de 2017

      Vocês viram bem o tamanho do problema, né?! Vai ser beeem complicado sair dessa com algum castor vivo. Triste demais.

  11. Responder

    laurasette

    28 de Janeiro de 2017

    A que ponto chegamos pela ganância do homem, né? Pior que quem (mais) tem de pagar por isso no fim são os pobres animais que não tiveram nada a ver com a história, e só estão ali fazendo o que o instinto os manda – fora de seu habitat natural, onde tudo estava em equilíbrio. Triste, muito triste isso 🙁
    Excelente texto, Guilherme! Não fazia ideia que a Patagônia passasse por isso. Continue compartilhando essas informações! 🙂
    Um abraço

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      28 de Janeiro de 2017

      Exatamente! Situação impensada, que trouxe um problemão pra região e vai gerar uma carnificina. Acaba que não tem um solução confortável em nenhum aspecto. Triste de verdade!
      Obrigado por ler e acompanhar, Laura!

  12. Responder

    Dayana

    28 de Janeiro de 2017

    Nossa, quanta tristeza também a gente acaba encontrando quando vê os resultados das “mexidas” que se faz no meio ambiente… 🙁

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      30 de Janeiro de 2017

      Infelizmente.

  13. Responder

    Vaneza Narciso

    29 de Janeiro de 2017

    Os castores se tornaram uma praga e devastam tudo. Estive aí em 2015 (acho) e fiz a trilha até a Laguna Esmeralda. Porém fui no verão. Pelo seu relato, durante o inverno a situação fica mais evidente.

    Obrigada pela partilha!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      30 de Janeiro de 2017

      Você viu com os próprios olhos então. Realmente muito complicado!

  14. Responder

    Edson Jr

    3 de Fevereiro de 2017

    Adorei o storytelling, praticamente descobri todo o estrago contigo. Estrago esse que apesar da destruição deixou as fotos lindas.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      3 de Fevereiro de 2017

      Valeu, man! Esse é um caso beeeem complicado, mas realmente a paisagem camufla a situação. haha Grande abraço!

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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