Inspiração Narrativa

Chai, garam chai!

20 de setembro de 2017

*Texto publicado primeiramente no blog Planeta Macboot.

 

Viajar pela Índia não é fácil. Na maior parte do tempo dói, é incômodo, barulhento. Mesmo para nós, que nos julgamos viajantes mais esclarecidos, é um desafio.

Assim que o céu do amanhecer ganha tons rosados, uma incontável massa de gente, rickshaws e vacas soltas dão as caras. Pessoas na calçada, nas ruas, nas casas, no trânsito. Gente por todo os lados. Os carros se movem na velocidade de um homem, enquanto as buzinas não permitem uma conversa a certa distância. Assim que você coloca os pés fora do seu quarto, durante horas você será pressionado entre multidões sem o mínimo de bom senso, vendedores dispostos a entregar os rins de algum familiar em troca de poucas rúpias, cachorros sarnentos e sofrerá uma série de questionamentos. Todos irão te saudar, alguns te tocarão e os olhares fixos desconcertantes estarão em cada esquina. Em tese, um bilhão de pessoas estará direcionando sua atenção à você. Mendigos, mutilados, charlatões, curiosos. É fácil se confundir e achar que você acabou comprando uma passagem para o purgatório. Durante os primeiros dias, passa a ser reconfortante e prático se esconder no seu quarto, como em um bunker.

Entretanto, assim como em diversos filmes onde as coisas estão em pé de guerra e magicamente surge uma solução, aqui também existe uma saída. Um conforto, uma satisfação intrépida para viajantes, uma verdadeira aventura e o que chamo de mais pura expressão de respeito cultural indiana.

Não importa o quanto eu explique e descreva. Você só vai entender a sensação e perceber o seu coração bater mais forte quando estiver ferrado em algum canto da Índia, precisando de um afago, e uma voz – adornada por trombetas celestiais – gritar do outro lado da rua a palavra mágica de quatro letras: C-H-A-I.

 

 

Não se sabe ao certo onde isso começou ou como surgiu. Há quem acredite fielmente numa lenda em que uma receita com uma mistura de chá, especiarias e leite foi criada há mais de cinco mil anos por um rei indiano e que ele a guardou como um tesouro. Outros atribuem a sua origem à medicina Ayurvédica, junto ao estudo de plantas medicinais e a sua aplicação na cura de doenças. E claro, existem ainda os ingleses que se vangloriam dos seus teashops e buscam reconhecimento pela sua influência durante o domínio colonial do Império Britânico. Mas na verdade, pouco importa.

Importa mesmo é que, se dependesse de mim, essa bebida já seria um patrimônio tombado pela Unesco.

O chai é um chá especial servido quente, que se toma a qualquer hora, em qualquer lugar, sob qualquer temperatura. No bar, nas ruas, no trem, na estação. Não importa em que parte do território indiano você estiver, sempre haverá um Chai Wallah – o chamado “cara do chá” – por perto.

Em média, um copo custará uns vinte centavos. Ele é servido em um copo pequeno, como um shot. E sem dúvida, é essa a melhor forma de apreciá-lo.

Ainda que existam várias receitas e que isso mude de região para região, em geral o chai leva chá preto, leite, açúcar, gengibre, pimenta, canela e cardamomo. Cada um faz à sua maneira, ressaltando esse ou aquele ingrediente. Mas é sempre bastante similar.

De alguma maneira, o chai é um concentrado da Índia. Uma pequena amostra desse lugar. Doce e picante, suave e espesso, com um gosto que permanece no paladar. Exatamente como uma viagem à Índia, que ainda que dure poucas semanas, vai parecer que levou alguns bons anos de sua vida.

 

 

Não existe uma forma correta ou um horário específico. Você o toma durante uma pausa, um respiro de tranquilidade em meio ao caos. Enquanto vacas cruzam o seu caminho, o trem passa e as pessoas vagam, assim que você o toma ele te oferece uma ajuda para aceitar mais e a deixar de fazer tantos questionamentos.

Se existe alguma dica válida para quem vai à Índia, eu sugiro que forme esse vínculo o quanto antes.

Talvez o chai não seja a resposta para compreender todos os aspectos da Índia, seus contrastes e conflitos, mas ele é um bom começo. Seja ao final de uma boa refeição ou no início de uma longa jornada, ele sempre estará lá, fazendo o seu papel de pacificador, reconfortando corações combalidos, mentes inquietas e turistas amedrontados.

 

Nova Delhi, março de 2017.

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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