Inspiração

Declaração de Independência

30 de junho de 2016

Prestes a completar 28 anos, tenho certeza que gastei mais tempo do que deveria em frente a tela de um computador.

Esse é um sentimento muito triste e desanimador. O ritual de acordar, me arrastar até uma empresa, sempre me dopando com alguma música que ilustrava algum desejo ou sonho. Invariavelmente, enquanto colocava minha digital e registrava minha entrada, eu terminava me perguntando o que eu estava fazendo da minha vida.

Com demasiada frequência, como quem aposta na Mega-Sena esperando mudar de vida, eu afastava as cortinas da janela e esperava encontrar uma resposta. A certa altura, assumi que eu era o indivíduo problemático, mimado o suficiente pra não entregar a melhor parte da minha vida durante 9h diárias em frente ao Photoshop.

Admito, eu errei feio.

Meus caminhos profissionais sempre foram mais para o lado de tentativas no escuro do que escolhas sensatas. Infelizmente, sorte não é um modelo de negócios.

Em vez de investir tempo e esforço – para chegar às agências de ponta, quando surgisse uma oportunidade – eu me condenei à trabalhos simples e que me exigiam pouco, irresponsavelmente. Logo não havia como recuar. Impossível viver com menos grana. De repente, dez anos depois, eu tinha um currículo que podemos chamar de inexpressivo, na melhor das hipóteses. Na pior, narrava uma história de mediocridade e prioridades abandonadas.

Tratar o desespero com drogas e álcool é uma tradição ancestral – e eu enchia a cara -, mas em certo momento entendi que já se tratava somente disso. Nunca vi nada de heroico em terminar um “job”.

Para o meu próprio bem, fui arrastado para fora da linha de produção. Coisas se quebram, coisas se perdem. Em algum lugar do caminho eu havia batido de frente com o pior sentimento que um homem pode ter – a desesperança -, e meus ossos gelaram de medo. Não sei se foi algo que vi no meu trajeto para o trabalho – ou no espelho, durante meus anos como designer -, mas eu precisava tomar uma atitude, mudar.

Depois dessa última xícara de café, vou calçar essas botas ainda molhadas e caminhar trilha adentro. Estou realmente longe de casa, enfurnado em uma pequena vila à beira dos Andes. Eu ainda continuo a buscar a maldita resposta que eu supunha estar atrás das cortinas.

Talvez ela esteja na próxima laguna congelada.

El Chaltén. Abril de 2016.

 

Laguna de Los Tres, El Chaltén.

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5 Comentários
  1. Responder

    colecionemomentosenaocoisas

    4 de julho de 2016

    Adorei o texto, tbm estou a procura do meu lugar ao sol…mas o importante é nunca desistir…

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Exatooo! Tem que correr atrás do que faz feliz!

  2. Responder

    Amanda Jacob

    12 de dezembro de 2016

    Estou prestes a fazer 28 anos, sou designer com um portifólio medíocre e choro todos os dias antes de registrar minha entrada com a digital. Largar tudo e cair no mundo é a primeira coisa que penso ao acordar e a última antes de dormir, mas acho que, diferente de você, nunca realizarei esse sonho pq tenho pessoas que dependem de mim por aqui. Ou esse é o argumento mais forte que encontrei para não sair da minha zona de conforto. Espero não ter que chegar aos 50 pra perceber que dinheiro não é tudo e que um salário, bem bosta por sinal, nunca deveria ter me paralisado onde não estava feliz. Adorei o blog, estou te acompanhando no insta e face. Sucesso! Aproveite!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Não é nada fácil Amanda. Ao passo que não dá sair da zona de conforto por ter dependências, você também não pode se condenar a seguir fazendo o que não gosta. Tem que achar um meio, um equilíbrio. Ninguém consegue viver de ar, mas também é muito decepcionante quando se passa uma vida triste e frustrada. Eu achei meio caminho buscando fazer o que eu mais gosto. Espero que você também ache o seu. 🙂 Obrigado por me seguir! Torço pra que em algum momento eu escreva algo que te faça bem!

  3. Responder

    Júlia Paniz

    12 de fevereiro de 2017

    Baita depoimento! Vivemos em uma sociedade frustrada que acredita que o sucesso está em comprar o melhor carro, ter o melhor apartamento e receber o melhor salário. Enquanto na verdade, esquecemos que a graça da vida está no viver o hoje, com o que ja se tem. É sempre bom sonhar mais alto, mas é também muito bom descobrir o quanto conseguimos ser felizes com “tão pouco” que é o mundo que já temos para desbravar. Parabéns pelos textos, fotos e reflexões, são inspiradores!

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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