Inspiração Narrativa

Entre rúpias, cúrcuma e tuc-tucs

7 de dezembro de 2017

Nós somos felizes loucos por amor e fé em vários momentos em nossas vidas. E eu acho que, a julgar pelo nosso histórico, tendemos a gostar disso.

 

 

Mas para esse salto de amor e fé é necessário se entregar. Requer uma suspensão voluntária da descrença, uma negação de estatísticas, evidências empíricas e do bom senso.

Ao final de uma jornada, o que vimos e com o que voltamos é sempre uma história profundamente confusa. E, dessa vez, sentimentos tamanho controversos ofuscam, disfarçam e não permitem sequer o esboço de uma sentença.

Em nenhum outro local que estive houve tamanha desconexão entre o que é narrado pelas pessoas, o que eu esperava e o que vi e senti. Porque a Índia, uma vez que tomei consciência das pessoas e dos lugares, é muito diferente das minhas mais sinceras expectativas.

Durante minha empreitada pela Ásia não fui ingênuo sobre onde estava ou a realidade das situações. Porém, em meio a tanta miséria, caos e vidas entregues a fervorosidade religiosa, é difícil descrever um sabor estranho e intangível que se sente ao andar pelas ruas.

 

 

Existem dois tipos de visitantes na Índia.

Há aqueles que rapidamente se vêem frustrados, irritados, assustados com a comida, intimidados pela grande massa de gente, dominados pela pobreza tão evidente, desconfortáveis por receber olhares que parecem despir a alma e perplexos com o comportamento dos indianos. Como no primeiro dia de aula em uma escola nova, completamente amedrontados, torcem para que o tempo corra e então possam ir logo para casa.

“Porque diabos você está sorrindo?” “E eu já disse que não quero um Tuc-Tuc, caramba!”

Outros, acabam encantados.

 

 

Você precisa redefinir algumas palavras e questões quando viaja pela Índia. As cores; os aromas dos pratos; a magnitude dos fortes e palácios; o retalho de crenças, deuses e práticas religiosas do hinduísmo. Em diversos aspectos, esse é um país que desafia os poderes descritivos do cérebro humano e onde nem mesmo as fotografias podem oferecer justiça.

 

 

Eu odiei a Índia em um primeiro momento, mas hoje sinto saudades. Como o ex-veterano de guerra que já são sabe como lidar com a falta da excitação e adrenalina, comigo acontece o mesmo. Talvez eu simplesmente não soubesse como lidar com aquele lugar naquela época.

A Índia é uma terra que pode aquecer o seu coração em um dia e quebrá-lo no próximo. Um local onde a esperança é tratada de outra forma, mas conformada e menos trabalhada. Onde a vida, ainda que pairando sob uma nuvem espessa de dúvidas, segue na contramão do que estamos acostumados.

Existe uma série de questões que, quando abordadas apenas como “culturais” ou de “conexão espiritual”, acabam deixando ainda mais perguntas no ar. E no meu caso, levou muito tempo até que eu conseguisse desviar de interrogações que não possuem resposta clara.

Talvez seja o meu grau de ignorância sobre algo tão diferente.  Quem sabe o preço a se pagar por descobrir todos os mistérios desse lugar seja alto demais e beire a frustração. Provavelmente, sempre existirá a dúvida sobre o que ficou para trás. Eu não entendi nada, aprendi alguma coisa ou absorvi muito e estou demorando a digerir? Possivelmente, a resposta seja apenas aprender a conviver com isso.

 

 

De toda forma, na ausência das buzinas e sob a ligeira saudade das vozes oferecendo “chai” pelas estações de trem, o que aflora é um sorriso no canto da boca. Um sentimento bom, orgulhoso, sobre como foi estar do outro lado do mundo e ver com os próprios olhos como é a vida lá fora. A Índia é um país com um grande coração. A morada de deuses orgulhosos e humanos humildes.

Nenhuma outra viagem me colocou tantas interrogações, trabalhou meu inconsciente e me fez sentir tão vivo. E isso, ao final, é o que faz valer a pena.

Então, como resumir uma viagem à Índia?

Essa é uma pergunta errada. Você não resume.

Esse é um lugar para ver e sentir algo muito raro e extraordinário; algo único que nunca conseguiremos descrever ou compartilhar com quem não esteve por ali; algo que dificilmente conseguiremos vivenciar de novo. A Índia é um desses momentos.

 

 

O calor, a poeira e os cheiros dessa nação podem capturar seu coração ou afastar você. Mas as cores, os saris, os temperos, os campos e o céu alaranjado, os rios e os lagos, as montanhas e os desertos – ficaram enraizados para sempre em sua alma.

Dada a chance, vá até lá, abra os seus olhos, sua mente e seu coração.

Deixe a Índia fluir em você.

 

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2 Comentários
  1. Responder

    Demilson

    8 de dezembro de 2017

    Que texto ! Que lindas fotos !
    Parabéns !!

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      31 de Janeiro de 2018

      Obrigado, parceiro! Valeu mesmo!

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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