Narrativa

Júlio Verne, caneta Bic e o verdadeiro Farol do Fim do Mundo

18 de maio de 2016

Cada um tem em seu imaginário uma ideia própria do que pode ser considerado o “fim do mundo” – um lugar isolado, um cenário inóspito, talvez o horizonte vazio. Mas quase todo mundo tem uma ideia mais ou menos fixa quando se trata do Farol do Fim do Mundo. Muito provavelmente essa é a primeira imagem que vem a cabeça quando se pensa em Ushuaia. Pintado de vermelho e branco; cravado em uma pequena ilha no meio do Canal Beagle; partilhando luz por 7 milhas; cercado de pinguins. Não é necessário mais que uma rápida busca no Google para perceber que aquele é mesmo o maior símbolo daquela terra.

Só que, assim como a grande maioria das pessoas, eu também estava enganado. Outra vítima da falta de pesquisa, eu acho. Já eternizado em fotografias e postais, aquele na verdade trata-se do Farol Les Éclaireurs, o qual não é o mais austral do mundo. Obviamente sua beleza é indiscutível, mas toda a confusão vem por parte das agências de turismo que promovem excursões sob essa alegação afim de ganhar mais alguns trocados.

A 240 quilômetros dali, em um brote insular da Cordilheira dos Andes, está a Ilha dos Estados. É lá, bem a noroeste da “ponta da bota argentina”, que está o Farol de San Juan del Salvamento, o mais antigo da Argentina e verdadeiro detentor do título de Farol do Fim do Mundo. Foi baseado nesse farol que Júlio Verne escreveu o clássico romance homônimo que concedeu tamanha fama ao lugar.

Sua construção se deu em 1884, quando a Divisão Expedicionária do Atlântico Sul estabeleceu naquela ilha uma subprefeitura marítima, uma prisão e uma estação de salvamento e auxílio aos numerosos naufrágios nas imediações do Cabo Horn. Após um incêndio e a construção de um novo farol melhor localizado, por quase um século o antigo farol se manteve esquecido.

Hoje no mesmo lugar há uma réplica, entretanto, infelizmente não há tours organizados para essa ilha, sendo possível chegar apenas com embarcações particulares e sob restrições bastante burocráticas. Uma carona com chance zero de conseguir fora da temporada.

Na noite anterior à minha partida para essa viagem, um livro entrou na minha bagagem. Junto dele veio o pedido: levar este livro até o tal farol e pedir para que quem o estivesse supervisionando o assinasse. É claro que esse livro era o romance de Júlio Verne, e o pedido pertencia ao meu pai. Infelizmente uma missão que, somente quando cheguei a Ushuaia, percebi que não poderia cumprir. Por um breve momento fui motivo de chacota quando perguntei, como quem pergunta o endereço da padaria, como eu poderia chegar lá. Quem sabe quando eu tiver um veleiro e navegar lotado de rum, pirateando pelos sete mares. A mim só restava explicar o equivoco e porquê não poderia realizar o feito.

Mas foi perambulando pelos fundos da antiga Penitenciária de Ushuaia, aos 48 do segundo tempo, quando pensava em voltar ao hostel, que me deparei com uma réplica do primeiro farol. Erguida parcialmente com os restos que sobreviveram ao incêndio e as intempéries, ela estava lá do jeito que era pra ser, mas desta vez cercada por muros e não por penhascos e mar, pronta para consolar a busca de muitos aventureiros que acabam com a mesma missão frustrada.

No silêncio de uma solitária cárcere, sem luz alguma a iluminar as águas geladas, eu estava só. Um velho lobo solitário, sem barco a guiar, parte oficial, parte pirata.

Não cheguei à Ilha dos Estados, mas encontrei o Farol do Fim do Mundo. Fui ajudar os três argentinos encarregados de cuidar do farol a fazer frente ao grupo de doze piratas. Eles já não estavam mais lá.

Por um breve momento, fui o responsável pelo farol. Sem pestanejar, tomei uma caneta azul e na contracapa do livro assinei meu nome.

Missão cumprida, pai.

 

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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