8 de maio de 2017

*Texto publicado primeiramente no blog HEVP.

 

Dos textos e relatos que me dão náuseas, a maioria deles são sempre saturados de adjetivos, floridos e repetitivamente otimistas. É sempre algo na linha de “o lugar é lindo; o povo é acolhedor; a comida deliciosa; as pessoas amáveis; um paraíso perdido.” Ninguém está errado, as pessoas têm o direito de se deslumbrar. Mas pra mim, uma prosa adjetivada é sinônimo da falta de assunto e narra muito pouco sobre o que realmente você encontra naquele lugar.

A verdade é que o Nepal entrou no itinerário como uma desculpa para aumentar o número de bandeiras costuradas na minha mochila. Em uma trip pela Índia, ficava prático – ledo engano – dar uma esticada até Kathmandu e marcar mais um país visitado. Na maioria esmagadora das vezes, o tiro acaba saindo pela culatra e essas empreitadas dão mais trabalho do que retorno. Não é o caso do Nepal.

 

 

Foi difícil chegar ao Vale de Kathmandu. Você tende a se questionar sobre o que está fazendo da sua vida enquanto olha pela janela tentando calcular os centímetros que separam o pneu do seu ônibus e um precipício. Saindo de Varanasi, na Índia, nos disseram que seriam quinze horas de viagem; foram mais de vinte e três. Sob solavancos de uma estrada de barro que serpenteia penhascos com carcaças de antigos ônibus mostrando como as coisas estão por um fio, buzinas madrugada adentro e suborno na fronteira, chegar ao “teto do mundo” parece requerer uma prova para separar quem é digno ou não de entrar no “céu”.

Ainda que o caminho até Kathmandu seja tão belo quanto perigoso, a cidade em si não é, nem de longe, um amparo de belas paisagens. Emaranhados indecifráveis de fios elétricos em postes, casas e pequenos prédios beirando o desabamento e se apoiando uns nos outros, trânsito fluindo através de veias caóticas, esburacadas e empoeiradas. Se você for ao Monkey Temple – um dos principais redutos do vale com sua espiral dourada pintada com os olhos de Buda subindo em direção às nuvens – , vai notar uma série de estacas de contenção, escombros e muito trabalho a se fazer.

 

 

Em 2015 um terremoto com epicentro no Nepal virou manchete em todo o mundo. Em uma rápida busca por imagens entre antes e após o desastre, você pode ter uma real dimensão do tamanho do estrago. Oito mil pessoas perderam a vida e os prejuízos são incalculáveis.

Porém, ainda que parcialmente destruído e sob sérias complicações no processo de reconstrução, esse é um daqueles casos em que a beleza transcende a fachada.

É normal que nossa opinião sobre determinado lugar ou coisa tenha como base uma outra experiência recente. Benefícios ou traumas estão frescos na memória. Mas dessa vez eu julgo que o salto foi imenso. Eu acabara de sair da Índia, e enquanto lá eu fazia malabarismo na tentativa de desviar de merda – no sentido tanto metafórico quanto literal -, de pilotos em fuga e vacas semi domesticadas, no Nepal minha única preocupação era corresponder a altura os sorrisos e acenos, principalmente das crianças a caminho do colégio ou de casa, que marcavam cada quadra percorrida.

 

 

Gentis, amáveis, desacelerados, pacientes. A felicidade está estampada no rosto dos nepaleses porque sentiram, em seu melhor juízo, que deveriam ter uma atitude livre e leve em relação a tantas situações adversas. Um povo orgulhoso, em um país pobre, que mantém sua tradição de boa hospitalidade e que parece estar tentando fazer o seu melhor o tempo todo, ainda que em meio a tanto caos, miséria e ruínas. Eles vivem e transmitem algum tipo de esperança, não importa se você está comprando algo, pedindo ajuda ou contando uma piada.

Aqui, independente se o plano de fundo são destroços e ruínas ou uma bela paisagem, o lugar torna-se apenas um papel de parede em movimento perante a atitude das pessoas. Já não é o local que importa ou faz diferença, mas sim quem vive ali. E no Nepal eu me contradigo, baixo a guarda e me rendo aos adjetivos. Ao povo nepalês, distribuo os melhores. Não por falta do que dizer, mas porque eles simplesmente são merecedores.

Onde eu esperava dor, decepção e apatia, encontrei determinação, simpatia e alegria. A impressão é que talvez eles não tivessem consciência da dimensão dos problemas que passaram e estão passando, ou simplesmente isso não é o suficiente para abatê-los.

 

 

Eu estive poucos dias no Nepal, mas mesmo assim acredito que esse é um dos melhores argumentos para viajar que eu posso pensar. Porque quanto mais vemos do mundo, mais conhecemos pessoas, causas e nos deparamos com exemplos de coragem, esperança e bondade, então melhor seremos. É por isso, e não por fotografias em pontos turísticos, que viajamos, certo?

A exposição à coragem de quem saiu dos escombros, sacudiu a poeira, decidiu retomar o caminho e ainda distribui sorrisos aleatórios a totais estranhos, é contagiante. Nos enriquece, faz pensar e nos torna – ou deveria – mais humildes.

Eu não estou dizendo que comprar uma passagem para o Nepal é a resposta à paz mundial ou algo assim. Mas, dada a chance, acho que todos deveriam ir. Isso não pode ou vai te machucar.

Kathmandu, Nepal.

 

 

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2 Comentários
  1. Responder

    Flávia

    6 de junho de 2017

    Para mim uma viagem não é descrever lugares e sim envolver-se, observar o outro como um ser humano e estabelecer com ele uma relação. Parabéns pelo blog.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      7 de junho de 2017

      Temos o mesmo ponto de vista, Flávia! Vai muito além do ponto turístico. Obrigado pelo elogio ao blog e por acompanhar!

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

Viva novas aventuras!
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