Inspiração

Manifesto

26 de janeiro de 2017

Eu aprendi que antes mesmo de ler qualquer guia do Lonely Planet ou pensar em comprar uma mochila, existe algo que todo viajante deve compreender: você será o elo de ligação entre aqueles que te ouvem e o lugar para onde você vai. Logo, cabe a quem põe o pé na estrada ter a humildade para assimilar isso e assumir a responsabilidade, mostrando o mundo como ele é de verdade. Há que deixar um pouco de lado os estereótipos e observar um pouco além dos pontos turísticos.

Mostrar as pessoas, por exemplo, que primeiro passo para começar a entender o mundo é saber que o julgamento que fazemos sobre uma cultura é formado com base em valores da nossa própria. Logo, o que é certo ou errado, bom ou ruim, bonito ou feio é relativo em cada sociedade. E não é justo fazer isso de uma maneira leviana. Faz parte do ato de viajar relativizar, questionar, transformar, e não ser somente mais um mero observador etnocêntrico.

Existe um dever moral em todo viajante. Se você tem a oportunidade de visitar o Irã, por exemplo, evidencie o quão boas são as pessoas que vivem por lá e o que elas têm feito de incrível. Confronte, com a propriedade de quem caminhou por Teerã ou Persépolis, o estereótipo de terrorista árabe muçulmano adotado por muitos apenas pela falta de informação. Você pode – e deve – contribuir mais.

É dessa forma que, desde que me predispus a viajar e escrever, tento buscar algo mais do que meras dicas de viagem. Acredito, com toda certeza, que o ato de viajar só é completo quando você sai do roteiro pré determinado e se coloca em situações anormais. Ainda que sempre carregando um mapa e algumas recomendações, deixo que as pessoas e as oportunidades que cruzam meu caminho moldem meu itinerário. Nem tudo está escrito ou já foi interpretado.

Talvez essa seja a grande diferença que poucos percebem entre ser um turista e ser um viajante. Não há nada de errado com nenhuma das formas, porém o peso da contribuição e o tamanho do aprendizado é discrepante. Ambos põem o pé na estrada, vão aos mesmos lugares, mas tem olhares e buscas totalmente diferentes.

Eu quero ir a lugares inalcançáveis, me deparar com o novo, dar voz às pessoas que muito têm a dizer e abraçar causas impossíveis. Olhar para situações por uma perspectiva menos conhecida e examinar aspectos ignorados pela maioria. Viajar, registrar, compreender e exibir grandes dramas e histórias de alegria. Derrubar barreiras geográficas, romper preconceitos, tentar reagir a situações imutáveis e oferecer uma humilde interpretação sobre o que encontro na estrada. Ver o mundo como ele é, de forma não linear, e reportar tudo de verdadeiro que há nele.

E quando, mais tarde, alguém ler sobre os lugares em que eu estive, talvez tenha uma uma ideia melhor de quem exatamente mora lá e como leva a vida. Onde quer que estejam, as pessoas não são estatísticas; não são abstrações. É o envolvimento delas que, no fim, enriquece-nos e dá o devido valor ao ato de viajar.

 

Tal qual um astronauta em meio a criançada em Pushkar, Índia.

 

TAGS
POSTS RELACIONADOS
Polegar pro alto!

3 de abril de 2017

Declaração de Independência

30 de junho de 2016

Ao alcance do sopro da morte

21 de junho de 2016

13 Comentários
  1. Responder

    Isabel Martins

    30 de janeiro de 2017

    Aí está a diferença…um turista não irá ler o q vc escreve!! o que é uma pena, pq ele verá somente o que outros turistas viram!! a grande maioria só quer uma selfie para as redes sociais…

  2. Responder

    Patricia

    3 de fevereiro de 2017

    Concordo em gênero, número e grau. Perfeito!
    Estereótipos e falta de informação são fatores que distorcem qualquer imagem. E se podemos ajudar a dar uma visão “mais real” dos lugares, das pessoas e/ou das culturas, por que não?
    As viagens abrem nossos olhos e expandem horizontes em muitos sentidos e é nosso dever, como viajantes, passar isso para frente, para aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ver dessa forma.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      3 de fevereiro de 2017

      Aonde eu assino? hahaha Obrigado por contribuir, Patricia!

  3. Responder

    Ruthia

    3 de fevereiro de 2017

    Revejo-me no seu manifesto mas acredito que, por muito que tentemos deixar os preconceitos em casa, eles interferem na nossa visão do mundo. De resto, preconceito não tem que ser pejorativo (embora alguns sejam-no de facto), pode ser apenas um pré conceito concebido sem pesar todos os elementos: todos os seres humanos formam pré-conceitos inconscientemente. Por isso cada destino é diferente, dependendo de quem o visita.
    Não podemos é “impingir” o nosso olhar como o certo. Podemos evoluir e tornar esses pré-conceitos em conhecimento.
    Abraço ao viajante
    Ruthia d’O Berço do Mundo

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      3 de fevereiro de 2017

      Olá Ruthia! Impingir o nosso olhar jamais. Na melhor das hipóteses, temos que fornecer o máximo de informações relevantes e verdadeiras sobre um lugar ou povo que conhecemos. E mesmo que tenhamos visões diferentes ou pré-conceitos estabelecidos individualmente, não quer dizer que estamos aptos a pré julgar algo. Por vezes me parece injusto, já que é apenas nossa opinião sobre algo que muitas vezes nem nos aprofundamos. Obviamente, uma vez que conheçamos algo, não necessariamente temos que aceitar ou concordar. Mas cabe entender e reportar porque tal coisa acontece assim ou assado. O mundo precisa de mais informação verdadeira, sem filtros, e nós podemos colaborar com isso. Entendo bem seu ponto de vista e acho que essa oportunidade de evoluir e transformar esses pré-conceitos em conhecimentos é sim a melhor contribuição que alguém que cai na estrada pode fazer. Mesmo que cultivemos pré-conceitos inconscientemente, a informação é um bom caminho pra diminuir parte deles. Muito obrigado por ler e contribuir! Grande abraço!

  4. Responder

    Mapa na Mão

    3 de fevereiro de 2017

    Gostei do texto. Legal saber que há um blog que transmite outra visão, um outro lado da história. Parabéns!

  5. Responder

    Klécia Cassemiro

    3 de fevereiro de 2017

    Me identifiquei muito com teu manifesto! Foi quando tomei posse de grande parte dessas ideias que decidi que eu nasci pra ser viajante, não turista. Foi quando vi a beleza e imensidão do mundo que passei a tentar compreender, transmitir, assimilar e repassar tudo que vi, senti, experimentei do mundo. Que esse jornada, que nossos destinos, continuem a mudar o que trazemos conosco, para que juntos possamos sentir -e mudar – o mundo! Lindo manifesto!

  6. Responder

    laurasette

    3 de fevereiro de 2017

    Excelente o seu manifesto, Guilherme! Partilho da mesma opinião que sua. Viajar é despir-se de nossos preconceitos, é desconstruir aquilo que conhecemos e enxergar as coisas como elas são. E descobrimos quanta gente boa há no mundo, e que o diferente não é pior ou melhor, mas apenas isso: diferente. 🙂
    Abraço

  7. Responder

    Amilton Fortes

    3 de fevereiro de 2017

    Parabéns pela reflexão! Às vezes entramos numa espécie de maratona para conhecer mais lugares e não nos propomos a certas coisas, sobretudo interagir com pessoas do local. Que nós possamos aproveitar e, de fato, integrar melhor o espaço que visitamos! Gde abraço

  8. Responder

    Pedro Henriques

    4 de fevereiro de 2017

    Interessante essa abordagem Guilherme, é bem diferente a aprendizagem nas nossas viagens enquanto viajantes e enquanto turistas! Obrigado pelo texto.

  9. Responder

    Juliana Moreti (turistando.in)

    4 de fevereiro de 2017

    Ótimo post!
    Eu gosto de ver a vida local e saber como ela vive!
    Nunca circularia por uma cidade durante umas 3 horas com um pau de selfie (apenas para dar “check”), mas não condeno que o faz! Cada um tem seu motivo (seja para aproveitar um breve tempo de conexão pela cidade, seja para listar em sua fanpage a quantidade de paìses e cidades que conhece).
    Jà tem um tempo (antes mesmo do nascimento de meu filho) que eu e meu marido evitamos visitas breves em um local! Nem sempre dá certo, mas tentamos!
    Adoramos comer, parar em um café ou em uma praça e ver como é a vida da cidade! Nem sempre é possìvel fazer isso, mas estamos sempre dispostos a voltar em um local que gostamos (e jà fizemos isso diversas vezes)
    😉

  10. Responder

    Viajante Móvel

    5 de fevereiro de 2017

    Viajar com certeza é uma experiência de conhecimento e transformação. Sempre volto diferente de cada viagem que faço.

  11. Responder

    Paula Oliveira Abud

    6 de fevereiro de 2017

    Texto incrível, realmente nossa missão é mostrar como os lugares são, afinal cada um tem uma cultura, uma visão e poder conhecer e respeitar cada uma delas é um privilégio, adorei a reflexão!

Deixe uma resposta

Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

Viva novas aventuras!
Assine o blog

Digite seu e-mail para assinar este blog e receber as novidades do #NMEPJ!

Fazendo a Diferença
Mantenha-se Conectado