Causas e Lições

O Barracão 38

15 de março de 2016

Sentado à mesa, no barracão 38, a antessala do inferno, eu me prendia a tentativa de imaginar pela janela pijamas listrados a pisar descalços no chão branco forrado de neve. Pessoas que foram tiradas de suas casas, separadas de suas famílias e postas a beira do colapso em troca da firmação de uma ideologia. Nada daquilo cabia em mim. Nada fazia o menor sentido. Havia se passado 70 anos, mas o que hoje são fotografias e relatos, um dia foram João, Maria e José. Pessoas como eu e você, que tinham família, amigos e sonhos. Que queriam estudar e trabalhar, como qualquer um de nós.

É duro imaginar o que se passou naquele e em tantos outros campos de extermínio. Não há como identificar e entender que motivou esse tipo de atitude e crueldade.

Sinto a mesma sensação a cada vez que torno a ver essas fotos. Lembro-me exatamente do fim de tarde acinzentada daquele dia e do vazio enorme que me tomou conta. Lembro-me de ter ficado sem resposta quando me perguntei o que eu havia aprendido durante aquelas poucas horas. 

Mas como em diversas situações na vida, tendemos a nos esquecer de certas coisas. 

O mundo vem assistindo diariamente ao que vem acontecendo com milhares de pessoas que tem atravessado fronteiras e buscado refúgio em outros países, fugindo dos diversos problemas que assolam sua terra natal. São sírios, afegãos, iraquianos, nigerianos, ou de tantas outras nacionalidades, que deixam tudo para trás com apenas a roupa do corpo e um passagem na mão, apostando suas vidas na tentativa de trocar um passado triste por um futuro ainda incerto. Literalmente eles fogem da morte. Novamente são pessoas como nós, que deveriam ter uma vida normal planejando o que fariam no sábado após uma semana cansativa de trabalho ou que discutiriam a rodada do campeonato de futebol local sentados entre amigos. Por alguma razão, eles tiveram seu panorama totalmente alterado, vítimas de ações das quais sequer tiveram engajamento ou estavam envolvidas. Vítimas da mais pura ignorância do homem.

Injustiça e tristeza. Lamentavelmente o tema não perdeu atualidade, e a história se repete. Ano após ano, de continente em continente. Nazistas, membros do DAESH, Boko Haram; mudam os nomes, não muda a covardia.

Sobram preconceitos, ódio e medo. Faltam mãos estendidas, ajuda e compreensão.

Muito alemães alegaram não saber o que acontecia ou sequer terem conhecimento do Campo de Sachsenhausen, que fica menos de uma hora de Berlim. Vítimas da propaganda nazista ou não, cabe a lição: não podemos fechar novamente nossos olhos.

Mantidos de pé, aqueles barracões ainda estão lá para que o passado não seja silenciado e esquecido. Não devemos continuar cegos e surdos propositalmente.

 

“And I know one thing more – that the Europe of the future cannot exist without commemorating all those, regardless of their nationality, who were killed at that time with complete contempt and hate, who were tortured to death, starved, gassed, incinerated and hanged…” Andrzej Szczypiorski – Prisioneiro do Campo de Concentração de Sachsenhausen, 1995.

 

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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