Aventura Inspiração

O caminho até o fim do mundo

8 de junho de 2016

*Para ler ouvindo “Lights & Motion – Aerials”

 

Depois que de uma série de desacertos profissionais, vi acesa o que chamo de a luz amarelada da infelicidade. Eu era apenas um designer com uma índole agressiva e um coração cheio de inveja. Um caldo turvo infernal de frustração reprimida, energia nervosa, cafeína e álcool, vivendo muito próximo das fímbrias da conduta aceitável.

Nunca foi meu grande sonho chegar ao Ushuaia. Todo o romantismo por estar no “fim do mundo” ou mesmo a forma como cheguei até lá foram limitações sob as quais tive que me adaptar segundo meu tempo e orçamento. A escolha do destino tratou-se apenas de uma rápida olhada no mapa da América do Sul, sem qualquer medida de quilometragem, instrução ou desejo. Eu buscava apenas um ponto como meta final.

Hoje, olhando para trás, talvez isso já estivesse reservado para mim.

Tenho uma leve impressão de que quando tomei a decisão de agarrar a mochila e cair na estrada com a intenção de esfriar a cabeça e buscar novos caminhos, alguma força me direcionou ao sul. Lá eu aprenderia o que já não conseguia enxergar aqui.

Foram mais de 10 mil quilômetros de carona; trinta e poucas diferentes. E para quem, como eu, imaginava uma viagem perigosa e pesada: ledo engano. Em troca disso, encontrei dezenas de boas almas; uma infinidade de amigos; verdadeiros irmãos.

À medida que me movia, acabava percebendo que as pessoas que cruzavam meu caminho ganhavam cada vez mais espaço nessa viagem. Muito cedo deixou de ser uma busca por paisagens ou boas fotografias (apesar de eu ter encontrado os lugares mais fantásticos e inimagináveis). O destino final em si diminuía em relevância, ao passo que vislumbrava e calculava a imensa experiência de vida que me estava sendo proporcionada. Armado basicamente de coragem, conquistei pessoas que fizeram do meu mundo a inspiração para contar e viver as mais belas histórias.

De forma estranha, a dualidade da situação escancarava e evidenciava meus sentimentos conforme caminhava. A tristeza por deixar meus novos amigos pela ruta contrastava com a imensa felicidade e gratidão por termos cruzado nossos caminhos. Pessoas que agora, de uma forma ou de outra, também irão fazer parte da história da minha vida. Ficarão para sempre gravados na minha memória, nas imagens e em meus relatos. Com sorte, deixei algo de bom para trás também.

Saí de casa envolto em um redemoinho de tensão, medo e incertezas. A exemplo da revelação ao perceber o modo de vida calmo no Uruguai no último dezembro, descobri que são nas pequenas ações que estão os verdadeiros valores da vida. Parte do processo é reconhecer o outro como pessoa. Simplesmente estender a mão, oferecer um abraço e um sorriso, partilhar uma refeição ou uma cerveja. Aprendi que isso faz toda a diferença. Exemplos práticos de como podemos e devemos encarar nossos problemas, se é que eles realmente existem ou tem tamanha dimensão. Exemplo que as estradas e seus personagens seguem nos dando diariamente, mostrando como a leveza e a simplicidade são a luz ao fim do túnel.

Eu havia chego naquele pedaço de terra, nos confins da Argentina, esperando as imagens simbólicas que todos temos do Ushuaia. Mas a realidade foi outra. Não rolou aquela linda imagem com neve, pinguins e farol. Simplesmente porque já não se tratava disso. Meus olhos já não se prendiam a paisagens.

Agora sei que o caminho até o chamado fim do mundo é muito mais complexo, impressionante e importante do que isso. Mais do que uma estrada do bem, ela é um conjunto de pessoas de boa fé dispostas a ajudar. Elas estão lá para salvar e regenerar a fé de viajantes na bondade do próximo num complicado e gigantesco processo que não seria possível se não fosse por pessoas que se dedicam de corpo, alma e coração.

Nenhuma passagem compra isso. Nenhuma reserva dispõe desse luxo.

Eu quero ir a lugares inalcançáveis, falar com pessoas que muito tinham a dizer e abraçar causas impossíveis. Reagir a fatos imutáveis e oferecer uma humilde interpretação sobre tudo o que eu encontrar. Mas entendo que precisava passar primeiramente por essa jornada. Descobrir a mim mesmo antes de romper barreiras geográficas, derrubar preconceitos, depor ditaduras ou exibir grandes dramas e histórias.

Agora jogado ao sofá da minha casa, percebo que ele continua confortável como sempre me recordei. Mas o sentimento de paz dá outro tom ao meu modo de enxergar tudo. Fui o mais austral que pude e voltei. Carregado de esperança, livre de medos e com um singelo objetivo na bagagem: contribuir, ajudar e salvar o mundo.

Eternamente grato.

 

Playa Larga, Ushuaia.

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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