Aventura Narrativa

Prata, dinamites e folhas de coca no ar rarefeito

23 de março de 2016

Potosí, ou Potojsí em quechua, significa “Troveja, rebenta e explode’.

Reza a lenda que tão logo os primeiros indígenas começaram a escavar nos filões de prata da famosa montanha símbolo nacional boliviano, o Cerro Rico, uma voz forte como um trovão vinda das profundezas os advertiu em tom ameaçador: “Não é para vocês; Deus reserva essas riquezas para os que vêm de longe”.

Obviamente, “os que vêm de longe” não demoraram a chegar com seus elmos lustrados, espadas de Toledo e camisas do Real Madrid.

O Cerro Rico foi, durante o domínio espanhol, o maior produtor de prata no mundo e a veia jugular do vice-reinado. Os nativos ainda costumam de dizer que com a quantidade de prata extraída da montanha seria possível construir uma ponte de Potosí à Madrid. A riqueza do lugar já foi tão grande que Miguel de Cervantes criou a expressão “vale um Potosí” para algo de muito valor.

No começo do século XVII a cidade tinha entre jogadores profissionais, célebres prostitutas, caçadores de tesouros, índios, mineiros e almofadinhas do reinado, aproximadamente 150 mil habitantes. Não era somente a segunda cidade mais populosa do mundo – atrás apenas de Paris – mas também uma das mais ricas e atrativas. A montanha havia se tornado um poderoso imã e viu uma cidade desordenada brotar aos seus pés.

É claro que em um determinado momento a prata se esgotou, e como acontece em todos os lugares voltados a exploração, esse período de sanguessugas acabou resultando num rastro de pobreza e falta de estrutura marcantes no país, que ainda é um dos mais pobres da América.

Hoje o Cerro Rico corre risco de desabamento devido ao emaranhado de túneis que corroem seu interior e a erosão causada pela extração dos minerais com as mesmas técnicas antiquadas dos tempos da dominação espanhola. O melhor exemplo disso é você saber que ainda utilizam bananas de dinamite a torto e a direito.

A prova disso é o tour que fizemos com a Real Deal, uma agência formada por ex-mineiros que cansaram de passar o dia todo dentro de um buraco com uma picareta na mão e folhas de coca na boca.


 

Conforme manda a “tradição”, antes de adentrar as minas, vamos primeiro ao mercado comprar presentes aos mineiros que estão trabalhando. É uma prática vista com bons olhos – principalmente para os donos do comércio – e como bom convidado você deve fazer sua parte.

Logo, assim que se chega ao estabelecimento e prova algumas folhas de coca, você pode escolher – entre outras coisas – refrigerantes, cervejas, cigarros e claro, dinamites. Não precisa ser nenhum gênio para saber o que compramos, certo?! Pela bagatela de 15 reais você pode colocar meia montanha abaixo, acabar com um monumento histórico, símbolo de uma nação, provavelmente patrimônio mundial da UNESCO e passar o resto dos seus dias encarcerado numa das cidades mais altas do mundo sem pílulas para o “mal da altitude”. Não sei o que você ainda está esperando sentado no sofá.

 


De qualquer forma, no que se refere a entrar na montanha, a experiência é “diferente”. Anda-se na escuridão, em meio a lama e o cheiro de enxofre enche as narinas. O caminho pelos túneis é estreito, muitas vezes tem que se andar agachado, os andares inferiores estão distantes 20 metros uns dos outros e as passagens são verdadeiras escaladas, sem corda e ao lado de buracos que não se vê o fundo. Além disso, fica-se exposto a gases tóxicos como acetileno e arsênico, mas sem tempo suficiente para causar danos a saúde. Obs: quando um vagonete vem vindo, pule fora do caminho por sua própria conta.

Fica bastante claro porque mineiros se tornam agentes de viagens e guia turísticos.

Devido a tudo isso e ao fato das empresas responsáveis pelo tour fazerem os visitantes assinarem uma declaração isentando-as de qualquer responsabilidade em caso de acidente, a visita ao Cerro Rico e suas minas não é, digamos, um bom programa para a família no domingo. Mas, em todo caso, estar em Potosí – ou melhor, estar na Bolívia – e não fazer o tour é como ir a Oktoberfest e não encher a cara. Você sabe que vai passar mal e ter uma ressaca do inferno, mas vale a pena!

Num país onde semáforos, placas de contramão, cruzamentos e similares servem mais como sugestão do que regras em vigor, não é a toa que essa visita e todas suas excentricidades estão liberadas. Por enquanto.

É fato que no melhor prognóstico, é possível imaginar que esse lugar logo se torne uma bonita, estranha e perigosa ruína, fechada a mineiros e turistas. Uma lembrança dos tempos de exploração. Uma ferida aberta sem possibilidade de cicatrização. Apenas uma simples montanha esburacada, não mais rica.

Tragicamente, é uma parte da história da América que não sabemos até quando vai estar disponível fisicamente e não apenas em livros. Talvez amanhã o Cerro Rico não esteja mais lá e sim na tela de vários noticiários pelo mundo sob o título de “x pessoas desaparecidas no maior desastre da Bolívia”.

Então se depender de mim, dane-se o novo Iphone que você pode comprar em Miami. Você ainda pode conhecer Potosí e comprar dinamites nas ruas sob instruções de acender e correr!

Claustrofobia? Superestimada! Supere de uma vez.

 

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2 Comentários
  1. Responder

    Isabel Martins

    24 de março de 2016

    “Nem a pau” q eu desço…..nem é claustrofobia…é cagaço mesmo!! Não consigo correr riscos e viver “perigosamente”…rsrsrs…Adorei a parte histórica e saber seu ponto de vista…..mas me contento em ver por fotos e ler a respeito.

    • Responder

      naomeesperaprojantar

      15 de dezembro de 2016

      Hahahahaha melhor por fotos né?!

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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