Causas e Lições Narrativa

Três tipos de papas e dois de maíz numa lancheira da Hello Kity

14 de março de 2016

Esta foto da pequena peruana foi tirada pelo meu amigo Marcos, enquanto viajávamos juntos ao Peru, em setembro de 2011. Era o nosso primeiro contato com o Titicaca.

Lembro-me que na época eu reprovei nossa ida às ilhas flutuantes de Uros, alegando o quanto aquele tour era “coisa para americano ver” e que aquele povo já não vivia daquela forma há muito tempo.

Bem, por sorte, conforme o tempo passa, tendemos a repensar opiniões. Hoje percebo que, por mais incrível que possa ser estar entre uma tribo ou civilização intocada, desejar isso pode ser um tanto quanto egoísta da minha parte.

Digo isso porque talvez eles já não desejem mais viver daquela forma e almejem certo conforto em suas vidas. Refiro-me às coisas simples e que facilitam a vida de qualquer pessoa ao redor do mundo. Um telhado mais apropriado que impermeabilize, um fogão para cozinhar, acompanhar as notícias locais pela televisão ou mesmo o uso do Facebook apenas por diversão.

Se eu gosto disso, por que eles seriam diferentes? Conforme a humanidade avança, certas coisas são deixadas de lado não por desleixo, mas por se tratar do curso natural delas. Tudo depende da demanda de cada indivíduo ou povo. De acordo como a sociedade evolui, é correto que todos tenhamos acesso ao que nos interessa e possa nos ajudar no dia a dia.

Imagino que foi algo extremamente difícil construir ilhas, séculos atrás, naquelas condições e ainda continua sendo um desafio. Porém, hoje talvez a utilidade seja mais para ilustrar um passado e manter a cultura viva do que propriamente por necessidade.

Então agora eu repenso meu julgamento precipitado daquele dia.

Quando eu condenei esse passeio 4 anos atrás, fiz isso porque imaginava que aquelas pessoas deveriam estar vivendo da mesma forma como há 500 anos para que o tour tivesse veracidade.

Hoje eu percebo que a forma como eles vivem não é algo que eu ou você devamos controlar. Não estamos inseridos na sua realidade e nada mais justo do que eles ditarem como querem viver. Pra nós, vale apenas agradecer por eles terem escolhido ganhar o pão de cada dia fazendo um trabalho que mantém viva parte da história, fato que nos possibilita conhecer a cultura dos seus antepassados.

Preservar uma cultura não significa estar preso e restrito a ela. Nosso dever passa a ser cultuá-la da melhor forma que nosso tempo permite, entendendo a liberdade de escolha desses povos.

Espero que essa linda menininha possa estar agora em um sofá confortável, fazendo seus deveres de matemática. Amanhã cedo ela tem aula e vai levar sua lancheira da Hello Kitty pro recreio.

 

Isla de los Uros, Puno – Perú

TAGS
POSTS RELACIONADOS
Ahonikenk Chaltén

27 de fevereiro de 2018

Deserto de Esperança

27 de fevereiro de 2018

Um mergulho no Punbaj

31 de janeiro de 2018

Deixe uma resposta

Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

Pronto para aventura!
Assine o blog

Digite seu e-mail para assinar este blog e receber as novidades do #NMEPJ!

Viva novas aventuras!
Fazendo a Diferença