Causas e Lições Narrativa

Um mergulho no Punbaj

31 de Janeiro de 2018

*Texto publicado no blog HEVP.

 

Alguns lugares surpreendem você. Mesmo para quem está na estrada há um bom tempo, existem locais que vão te tirar da sua confortável visão do mundo, tomar suas suposições e seus preconceitos, e colocá-los de cabeça para baixo. Eles levam você a acreditar que talvez ainda haja esperança no mundo.

Depois de alguns dias no Nepal, eu confesso que não estava nem um pouco animado em voltar à Índia. Meus dentes já estavam serrados na preparativa para ser estúpido com o primeiro piloto de tuc-tuc que cruzasse o meu caminho. 

Após uma escala em Delhi e diversas perguntas desconfiadas sobre o que faria em Amritsar, eu havia chego ao Punjab. No meu itinerário estava o Templo Dourado, alguns pratos veganos e talvez visitar a Wagah Border. Como fatalmente acontece na maioria dos casos onde esprememos dez cidades numa jornada de trinta dias, o tempo corre, perdesse muita coisa e lacunas ficam abertas. E eu, mesmo depois de anos, volta e meia continuo repetindo esse erro. Por querer tocar ainda a campainha do Dalai Lama nessa viagem, tive que abortar a fronteira com o Paquistão.

De qualquer forma, ainda que bastante curta, essa foi uma das principais experiências que pude ter na Índia. Eu continuo ainda muito ignorante em relação ao sikhismo, mas pelo menos agora sei que em certa parte do território indiano o que reina não são as buzinas, mas a gentileza.

 

 

A Índia e o Paquistão outrora eram uma só nação. Em uma das partições mais precipitadas e mal-consideradas que se possa imaginar, foi traçada uma fronteira entre linhas religiosas e o território acabou rasgado e dividido.

Drenada pela enorme tarefa de combater duas guerras mundiais, em 1947 o Império Britânico decidiu “deixar pra lá” o seu domínio de quase 200 anos sobre o subcontinente indiano. Na tentativa de impedir que a antiga colônia acabasse numa guerra civil inevitável entre hindus, muçulmanos e sikhs, o comissário britânico Sir. Cyril Radcliffe, advogado do País de Gales e presidente das Comissões de Fronteira, elaborou a separação. Ele recebeu dois meses para delimitar o que foi batizada de Linha Radcliffe, ou, melhor colocando, recebeu 60 dias para criar um novo país, basicamente.

Em um dos maiores intercâmbios de população da história, milhões deixaram tudo para trás e se moveram. Quase imediatamente, a violência religiosa explodiu em massa e por muito tempo nem mesmo Gandhi se fez ouvir. Aconteceu exatamente o que a partição se propunha à evitar. Dizem que a partilha é tão problemática e mal organizada que existem casas espalhadas pela fronteira onde você entra pela Índia e sai pelo Paquistão.

Sem qualquer consideração, a região do Punjab foi dividida entre os dois países. Vizinhos passaram a responder à presidentes diferentes. O Paquistão herdou mais de 60% da região. A parcela indiana foi fragmentada e se tornou três estados diferentes: Punjab, Haryana e Himachal Pradesh.

A cidade de Wagah, à 30 quilômetros de Amritsar e à pouco mais de 20 de Lahore – Paquistão -, foi literalmente cortada ao meio durante a divisão. Lá está a Wagah Border, a única passagem na fronteira entre os dois países. Após algumas guerras sem qualquer resolução, atentados e muita coisa por baixo dos panos, a ameaça de terrorismo ao longo desta fronteira tornou-se uma preocupação diária. Um constante ponto de inflamação para o potencial conflito.

Entretanto, ainda que mergulhado por todo o caos e suspeitas sobre a região, o Punjab tem algo melhor à oferecer. A visão periférica, midiática e pretensiosa me preparou para a guerra, mas eu encontrei outros motivos para escrever.

 

 

O Punjab é um lugar distinto, com sua própria língua, cultura e história. É algo que os Punjabis tem que explicar com freqüência. Ser uma pequena minoria entre um bilhão de pessoas é viver sempre afastando camadas de estereótipos, decorrentes não apenas de uma cultura mais amplamente difundida, mas de um desconhecimento da sutileza e sombras nele fixadas.

A primeira coisa que você nota, diferente do resto da Índia, são os turbantes. Símbolo de auto-respeito, bravura e espiritualidade para os homens, eles estão por toda a parte. Amritsar, aliás, é a casa e o centro espiritual da fé Sikh, a quinta maior e talvez a mais incompreendida religião do mundo.

Quem são os sikhs é, possivelmente, uma resposta que poucas pessoas que conheço saberiam me responder. Não saber os conceitos centrais, a intenção e os princípios de sua fé é algo que indica o quão ignorantes sobre eles nós somos.

Criado pelo Guru Nanak no século XV, o sikhismo acredita em um único Deus e baseia-se em três pilares: buscar conquistas através do trabalho de suas mãos, permanecer com Deus em mente todo o tempo e dividir tudo o que se tem com os necessitados. Para “facilitar” as coisas, em muitos casos essa crença é retratada como o resultado de uma fusão entre elementos do hinduísmo e do islã. Mas eu aposto que um sikh reprovaria essa sentença.

No coração de Amritsar está o Templo Dourado, o equivalente sikh ao Vaticano. Assim como Meca para o islã, para todo adepto é importante realizar a peregrinação para este templo ao menos uma vez na vida.

 

 

Os sikhs são fundamentalmente contra qualquer sistema de castas e crentes na tolerância religiosa. Tanto faz se você reza para Alá, Jesus Cristo, Krishna ou ninguém.

Todos são bem-vindos e convidados para remover seus sapatos, lavar os pés, cobrir suas cabeças e adentrar ao templo. Dentro desse local está o O Sri Guru Granth Sahib, a mais sagrada literatura da religião. E é em frente ao imenso lago artificial que estão sendo servidas, ininterruptamente por mais de 400 anos, refeições vegetarianas gratuitas à todos que se permitirem.

Além da importância religiosa, esse também fora palco de um dos principais episódios da história recente no Punjab. Quando ocorreu a fragmentação da Índia e a criação do Paquistão, os sikhs ficaram confinados entre um país de maioria hindu e uma nação islâmica. Mesmo com a tolerância religiosa no currículo, isso nem sempre agradou a todos, e, em 1984, o Templo Dourado foi tomado por extremistas armados até os dentes que exigiam a formação de um estado independente, o Khalistan. Indira Gandhi, então primeira-ministra indiana, agiu para deter a ação dos rebeldes ordenando a tomada do santuário com tanques e morteiros. Intitulada Operação Estrela Azul, a ação acabou vista por parte da comunidade sikh como um ataque à sua religião e crenças. O resultado foi o assassinato de Indira por dois de seus guarda-costas sikhs e uma onda de ódio e massacres envolvendo os devotos. Um ponto fora da curva para aqueles que prezam pelo bem estar comum.

 

 

Não precisei de muito esforço para chamar a atenção enquanto eu, vergonhosamente, tentava improvisar um turbante. Chamado de Kesh, esse pano brilhante e colorido é o que faz os sikhs serem reconhecidos em todo o mundo – ainda que essa prática esteja em declínio justamente por os tornar vítimas fáceis de preconceitos. Sorrindo e esbanjando simpatia, um policial me socorreu. Em poucos passos, e na escassez de turistas ocidentais no local, virei eu a atração. Branco, loiro, com uma camiseta estampada, uma câmera na mão e um turbante. Talvez eu devesse ter aproveitado e me lançado candidato a vereador naquele momento. Passei o dia daquela forma, e ainda que alguns nitidamente desaprovassem o meu estilo, a quantidade de sorrisos e saudações foi esmagadoramente maior. Talvez tenha sido engraçado para eles, motivo de piada. Ou talvez outros tenham visto como sinal de respeito, eu espero. Enquanto eu esperava meu almoço ou agarrava um tuc-tuc, recebia acenos e comentários. Ainda que possivelmente me julgando, eles não parecem estar odiando a “novidade” já que quando meu turbante estava mal posicionado ou ameaçando se desfazer, alguém se aproximava e tratava de “dar uma ajeitada”.

 

 

É claro, muito da Índia ainda está aqui. No começo você encontra o que vê em tantos outros lugares. As ruas barulhentas, as calçadas superlotadas, o caos descontrolado e consensual. Mas olhando um pouco mais fundo, você verá o quão diferente aqui é de outros lados indianos. Uma repreensão para aqueles que pintariam um país inteiro de uma só cor.

Em Amritsar não existe a afobação por fazer negócio com você – com exceção dos, unilateralmente declarados por mim como meus inimigos mortais: os pilotos de tuc-tucs. Se em locais como Nova Delhi você passa a figurar como uma nota de gigante de dólar perambulando pela calçada aos olhos de praticamente todo mundo, aqui o respeito e o alívio dão o ar da graça. Existe uma estranha calmaria pairando sobre as ruas. Talvez isso seja reflexo do estado de Punjab ser um dos mais prósperos da Índia e com os menores índices de fome do país. Uma região fértil em um país muito seco faz muita diferença.

 

 

Eu peço permissão para entrar ao tanque de água do templo. Portando uma lança e com o dobro do meu tamanho, o guardião me concede com um sorriso e uma rápida instrução. Alguns templos hindus que encontrei pela Índia fecharam suas portas à não praticantes do hinduísmo. Aqui isso não faz o menor sentido.

Todo sikhs que você vê foi batizado. Ele usa uma pequena espada como símbolo e sabe que tem o dever de proteger os outros, sem restringir crenças ou pátrias. E isso faz deles o que eles são: um povo que prega a paz e a moderação. Pessoas fáceis de se relacionar e preocupadas com você. Um contraste perfeito para uma região tão turbulenta. Eu imagino que é isso que todos nós queremos como seres humanos, certo? Ser tratado com respeito, ser tolerado apesar das diferenças e recebido com um sorriso no rosto. Faz parte da ideia eu retribuir e colaborar, como bom hóspede. Apesar de tudo o que aconteceu no Punjab e indiferente ao grau de ignorância em que nos encontramos em relação à essas pessoas, eles estão abertos e nos recebem bem.

E isso, para mim, faz do Punjab um bom lugar para viver e visitar.

 

Amritsar, 2017. 

 

TAGS
POSTS RELACIONADOS
Ahonikenk Chaltén

27 de Fevereiro de 2018

Deserto de Esperança

27 de Fevereiro de 2018

Entre rúpias, cúrcuma e tuc-tucs

7 de dezembro de 2017

Deixe uma resposta

Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

Pronto para aventura!
Assine o blog

Digite seu e-mail para assinar este blog e receber as novidades do #NMEPJ!

Viva novas aventuras!
Fazendo a Diferença