Aventura Inspiração

“Viajeros en serio, no en serie”

26 de setembro de 2017

Esteticamente não é uma bela foto. Mas os acontecimentos que se desencadearam durante o período desse registro foram avassaladores. Sem eles, provavelmente hoje eu teria uma vida um pouco mais simples e pacata.

Talvez esse não fosse o momento adequado para tirar essa recordação da gaveta. Quem sabe daqui alguns anos, tomando a atenção de um neto, faria então mais sentido olhar com tamanho saudosismo. Mas sempre que a vejo, minha cabeça atravessa fronteiras sem passar por qualquer imigração. Ela ativa uma lembrança, como uma versão pessoal de um souvenir.

Depois de cruzar o coração da Bolívia, caminhar pelo deserto no Chile e caçar condores em cânions, finalmente estávamos no velho oeste peruano esperando por um curto voo. Ainda tento montar um quebra-cabeças com a sequência de fatos, entretanto esse liquidificador que é a memória dificulta a tarefa. A cada tanto saltam a vista novas imagens, falas e fatos, e tudo vira novamente uma salada. Desde que me entendo por gente, lugares como Machu Picchu e as Linhas de Nazca vêm figurando entre meus desejos mais profundos. Um claro resquício da atração pela arqueologia e que tomava forma a medida que caminhávamos sob o sol naquele aeroporto.

Abrir as pastas com as fotografias é como destrancar uma janela secreta que habilita a voltar a viagens passadas. E penso que poucos momentos equivalem a esses sorrisos.

Ninguém estava minimamente interessado na foto. Queríamos mais era entrar no avião e ver aquilo com os próprios olhos, arrancar da imaginação e tatuar no coração aquela visão. Riscar da lista de coisas à fazer enquanto andamos por aqui. Encarnar o Indiana Jones alçando voo naquela pista, não atrás da caveira de cristal, mas sim de um sonho de infância.

Das poucas coisas que perduram na memória, sabe-se que esse dia foi um catalisador. Naquele momento entendemos, com o perdão do trocadilho em espanhol, que éramos “viajeros en serio, no en serie”*. Nenhum fotógrafo jamais conseguiria captar aquele sentimento. Na verdade, nem mesmo nós sabíamos dele.

 

Nazca, agosto de 2011.

 

 

 

* Em tradução livre: viajantes de verdade, não em série.

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Guilherme Hoefelmann
Baln. Camboriú, SC . Brasil

Não sou jornalista, não sou correspondente internacional. Na melhor das hipóteses, sou apenas um entusiasta. Seja bem-vindo ao Não Me Espera Pro Jantar.

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